Uma tecnologia que usa cabos de fibra óptica para espionar o ambiente, conhecida como Sensoriamento Acústico Distribuído (DAS), está sendo aplicada em um dos cenários mais críticos das mudanças climáticas: o derretimento de geleiras. Em um estudo nos Alpes suíços, cientistas utilizaram a técnica para detectar milhares de "icequakes" — fraturas no gelo que geram atividade sísmica — e entender em detalhe um fenômeno que ameaça a estabilidade de massas de gelo em todo o mundo.
O que está em jogo vai além da curiosidade acadêmica. A pesquisa, detalhada em reportagem da publicação Grist, abre caminho para o desenvolvimento de sistemas de alerta precoce para colapsos catastróficos e para modelos mais precisos sobre a elevação do nível do mar. A tese é que uma infraestrutura relativamente comum pode se tornar uma ferramenta de monitoramento climático de alta precisão.
A escuta do gelo
A tecnologia DAS transforma um cabo de fibra óptica em milhares de sensores de deformação. Pulsos de laser são disparados através do cabo e, quando uma vibração — como uma fratura no gelo — ocorre nas proximidades, ela causa uma perturbação minúscula na luz que é refletida de volta para um dispositivo chamado interrogador. Com base na velocidade da luz, os pesquisadores conseguem localizar a origem da vibração com extrema precisão.
O método representa um salto em relação aos sismômetros tradicionais, que medem tremores em um único ponto. Com o DAS, é como se houvesse uma rede com milhares de sismômetros distribuídos ao longo do cabo, criando um mapa detalhado da atividade sísmica. Além de mais eficientes, os cabos são mais baratos e permitem que os dados sejam coletados remotamente e em tempo real, aumentando a segurança dos cientistas em ambientes perigosos.
Do alerta de risco à previsão climática
Em apenas uma semana de trabalho de campo na Suíça, a equipe liderada por Thomas Hudson, sismólogo da ETH Zurich, detectou mais de mil "icequakes". As observações forneceram evidências diretas do processo de "hidrofraturamento", no qual a água do degelo, mais densa que o gelo, penetra em fissuras, exercendo pressão e forçando a abertura de novas e mais profundas rachaduras. Esse mecanismo compromete a integridade estrutural da geleira de dentro para fora.
A compreensão desse processo é crucial. Geleiras alpinas pairam sobre vilarejos e infraestruturas críticas, como linhas de trem. Um sistema de monitoramento baseado em DAS poderia, teoricamente, fornecer um alerta precoce sobre mudanças na estabilidade do gelo. Em uma escala global, a mesma tecnologia pode ajudar a entender a velocidade de desintegração das plataformas de gelo na Antártida e na Groenlândia, fator determinante para a elevação dos oceanos.
O desafio, agora, é traduzir essa avalanche de dados em um sistema de alerta funcional e preciso. A tecnologia oferece uma visão sem precedentes do interior das geleiras, mas transformar os sinais em avisos acionáveis ainda é uma fronteira a ser desbravada pela ciência.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Grist





