A imagem da Amazônia no imaginário brasileiro oscila entre um patrimônio natural a ser protegido a qualquer custo e um obstáculo ao desenvolvimento. Uma tese que ganha força, no entanto, propõe um terceiro caminho: tratar a floresta em pé não como um museu, mas como o principal ativo de uma nova e sofisticada estratégia industrial para o país.

Essa visão, articulada em artigo de Ana Costa, vice-presidente da Natura, para o Capital Reset, defende que a chamada “sociobioeconomia” pode alinhar interesses ambientais, sociais e econômicos. A questão, segundo essa corrente, não é mais escolher entre conservar e desenvolver, mas construir um modelo de desenvolvimento que tenha a floresta como sua base material e as comunidades locais como protagonistas.

Da conservação à industrialização

Por décadas, o debate econômico relegou a Amazônia a um papel periférico, vista como um centro de custo ambiental. A nova abordagem inverte essa lógica, enxergando a biodiversidade como o alicerce de uma economia de alto valor agregado. Não se trata de extrativismo predatório, mas de uma cadeia que conecta pesquisa científica, conhecimento tradicional, inovação em produtos e acesso a mercados globais.

O conceito central é que a floresta pode fornecer a matéria-prima para cosméticos, alimentos funcionais, fármacos e novos biomateriais, substituindo insumos de origem fóssil. O ponto crítico, no entanto, é garantir que o valor gerado por essa industrialização permaneça no Brasil e, principalmente, nos territórios de origem. Para isso, a criação de hubs locais que unam universidades, empresas, empreendedores e investidores é fundamental para transformar conhecimento em negócios e desenvolvimento regional.

Os desafios da escala

A transição de projetos-piloto para uma economia de escala é o maior obstáculo. A experiência da própria Natura na região, citada no artigo, demonstra que o modelo exige mais do que boas intenções. São necessárias relações de confiança de longo prazo com as comunidades, garantia de compra para dar previsibilidade aos produtores e, crucialmente, novos instrumentos financeiros.

Cooperativas e pequenos produtores possuem ciclos e riscos que não se encaixam nos modelos de crédito tradicionais. A solução passa por finanças combinadas (blended finance), apoio técnico e políticas públicas consistentes. O exemplo do projeto de Sistemas Agroflorestais (SAF) com o dendê, que elevou a renda de famílias em 40% sobre a monocultura, serve como prova de conceito de que ganhos econômicos e ambientais podem andar juntos. O desafio é replicar e escalar essa lógica para uma região de dimensões continentais.

A visão de uma Amazônia industrializada a partir de sua própria biologia é poderosa. Ela oferece uma rota para o Brasil se posicionar como líder em uma economia de baixo carbono, unindo conservação, inovação e prosperidade. O sucesso, contudo, dependerá da capacidade do país de orquestrar uma complexa rede de atores e de criar as condições para que o valor da floresta em pé seja, de fato, capturado e compartilhado por quem vive nela.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Capital Reset