A ascensão da inteligência artificial generativa está criando uma nova e voraz demanda global: eletricidade. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que o consumo de energia apenas por data centers pode mais que dobrar até 2026, alcançando um volume superior ao consumo anual do Japão. Nesse cenário, a infraestrutura elétrica deixa de ser um serviço de utilidade pública para se tornar um ativo estratégico na competição por investimentos, talentos e relevância econômica.

É neste contexto que se insere a recente renovação da concessão da Light no Rio de Janeiro por mais 30 anos, acompanhada de um plano de investimentos de R$ 10 bilhões nos próximos cinco anos. O movimento, detalhado em uma análise da MIT Technology Review Brasil, posiciona a energia como pilar central para o futuro do estado. A tese é clara: a capacidade de fornecer energia confiável, abundante e digitalizada será um fator decisivo para que o Rio de Janeiro capitalize sobre seus ativos históricos e se torne um polo para a economia digital.

A infraestrutura como ativo estratégico

Por décadas, a vantagem competitiva de um território era medida por sua logística, mão de obra ou incentivos fiscais. Na era da IA, a disponibilidade de megawatts confiáveis e sustentáveis entra na equação como um fator primordial. Grandes empresas de tecnologia, ao decidirem onde instalar seus próximos data centers ou centros de P&D, analisam a robustez da rede elétrica com o mesmo rigor que avaliam o ecossistema de talentos. A energia deixa de ser um custo operacional para se tornar uma condição de viabilidade.

O Rio de Janeiro, como aponta um estudo da Firjan citado na reportagem, possui uma combinação única de ativos: uma marca global, base científica robusta com instituições como UFRJ e Fiocruz, e uma economia diversificada. Contudo, sem uma espinha dorsal energética à altura, esse potencial corre o risco de não se materializar. O investimento anunciado pela Light é um passo necessário para modernizar uma rede que precisará ser não apenas maior, mas fundamentalmente mais inteligente, integrando automação, sensores e análise de dados para garantir a estabilidade que a economia digital exige.

O desafio duplo: modernização e realidade social

Construir uma rede elétrica para o futuro, no entanto, é um desafio de duas frentes. De um lado, há a necessidade de uma modernização tecnológica profunda. As redes elétricas inteligentes, ou smart grids, são essenciais para gerenciar uma demanda mais complexa, integrar fontes de energia renovável distribuídas e oferecer a resiliência que aplicações críticas, como as de IA, demandam. Trata-se de um esforço de capital intensivo que visa transformar a infraestrutura passiva do século XX em uma plataforma digital e responsiva.

Do outro lado, está a complexa realidade socioeconômica do Rio de Janeiro. A mesma concessionária que precisa planejar a alimentação de data centers de última geração enfrenta em seu dia a dia questões estruturais como o furto de energia — as chamadas perdas não técnicas — e as severas restrições operacionais em territórios conflagrados. Ignorar essa dimensão seria um erro estratégico. A modernização da rede não pode ser um projeto que atende apenas aos novos polos tecnológicos; ela precisa, simultaneamente, endereçar a chamada pobreza energética e melhorar a qualidade e a segurança do serviço para milhões de consumidores em áreas vulneráveis.

O futuro do Rio de Janeiro, portanto, será definido por sua capacidade de equilibrar essas duas agendas. A renovação da concessão da Light não é um ponto de chegada, mas o início de uma corrida de longa distância. O sucesso não será medido apenas pela atração de novos investimentos em tecnologia, mas pela capacidade de converter esse desenvolvimento em uma prosperidade mais distribuída, garantindo que a infraestrutura do futuro sirva tanto aos algoritmos da nova economia quanto às necessidades básicas de toda a sua população.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil