A rotina de um CEO de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo pode ser radicalmente simples. Roland Busch, que lidera a Siemens e seus mais de 300 mil funcionários, revelou um método de gestão que dispensa rituais corporativos consagrados: ele não tem reuniões recorrentes com seus diretos e responde a boa parte de seus e-mails com apenas duas letras: “OK” ou “Não”.

As práticas, detalhadas em um ensaio pessoal para o Business Insider, podem soar como excentricidade, mas representam uma filosofia de gestão deliberada. Com formação em física teórica, Busch aplica aos negócios o princípio de “isolar as variáveis centrais” de um problema. Sua rotina espartana não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta para forçar o foco no que é essencial, delegando o restante e confiando na autonomia de sua equipe.

A física da gestão

A ausência de reuniões fixas na agenda de Busch é a expressão máxima dessa confiança. Em vez de encontros protocolares para manutenção de status, ele opera sob demanda. “Você vem a mim sempre que precisar de mim”, afirma. A abordagem transfere a responsabilidade para a equipe, que precisa ter clareza sobre quando a escalada para o CEO é de fato necessária. O modelo contrasta frontalmente com a cultura de agendas lotadas que domina tanto startups quanto grandes corporações, onde reuniões recorrentes muitas vezes se tornam um fim em si mesmas, minando a produtividade.

Da mesma forma, a gestão de e-mails — mantendo a caixa de entrada abaixo de 100 mensagens e usando respostas monossilábicas — funciona como um sistema de triagem. Decisões que podem ser resolvidas com um “sim” ou “não” são executadas com velocidade máxima. Questões que demandam mais nuances não são resolvidas por trocas de texto intermináveis, mas em conversas diretas, agendadas conforme a necessidade. É a aplicação prática de seu método de decompor problemas: a complexidade só é endereçada quando indispensável.

O sistema por trás do indivíduo

O método de Busch, no entanto, não é um ato solo. Ele depende de uma estrutura de suporte robusta e de uma disciplina pessoal férrea. O CEO credita sua assistente, com quem trabalha há mais de uma década, como a gestora brilhante de sua agenda. A existência de uma equipe treinada para se comunicar de forma concisa e um aparato de suporte eficiente são pré-requisitos para que o líder possa se concentrar nas decisões de mais alto nível.

Essa estrutura se apoia em uma rotina pessoal inflexível, que inclui treinos diários às 6:30 da manhã, mesmo durante seu intenso calendário de viagens — que, segundo a Lufthansa, já somou a distância de ida e quase volta à Lua em um ano. A disciplina física parece ser a base para a resistência mental exigida pelo cargo. Mesmo o tempo de descompressão é intencional, seja em jantares sem pauta com a equipe ou ao tocar guitarra para “mudar o humor completamente”.

O modelo de Roland Busch é menos um manual de produtividade e mais uma provocação sobre a essência da liderança em escala. Sua abordagem sugere que o papel de um CEO moderno talvez não seja estar em todas as reuniões, mas sim construir um sistema onde a maioria delas se torne desnecessária. A questão que fica é se tal filosofia é replicável ou se é um privilégio de poucos, moldado por uma combinação única de personalidade, senioridade e cultura organizacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider