A densa fumaça de centenas de incêndios florestais no Canadá está se espalhando pelos Estados Unidos, deteriorando a qualidade do ar em cidades como Detroit, Duluth e Nova York. O fenômeno transforma o céu em uma névoa laranja e eleva os índices de poluição a níveis perigosos, forçando milhões de pessoas a permanecerem em ambientes fechados.

O evento, contudo, tem um significado mais profundo: ele expõe a fragilidade da ideia de "refúgios climáticos". Regiões como a dos Grandes Lagos, com sua abundância de água doce e clima historicamente mais ameno, eram apontadas como portos seguros diante do avanço da crise ambiental. Um livro de 2021 chegou a nomear Michigan como o melhor lugar para se viver até 2050. A realidade, como mostra uma reportagem da Fast Company, é que não há como escapar.

A geografia da interdependência

O conceito de um refúgio climático sempre foi mais uma aspiração do que uma estratégia viável. Ele se baseia na premissa de que os desastres ambientais são eventos locais e isolados, uma noção que a fumaça canadense desmente de forma categórica. "Não existe um refúgio climático", afirma Jesse M. Keenan, da Tulane University, à publicação. "Existem apenas lugares melhores e piores para se viver". A fumaça, carregada de partículas finas (PM2.5) que penetram nos pulmões e na corrente sanguínea, é um lembrete tangível de que os sistemas terrestres estão interligados.

Além da poluição do ar, outros impactos em cascata demonstram essa interconexão. A cientista climática Katharine Hayhoe aponta que, mesmo que uma região não sofra diretamente com secas ou enchentes, ela sentirá os efeitos através do aumento dos preços dos alimentos, da elevação dos custos de seguros e da disseminação de doenças.

A busca por um enclave seguro se revela, portanto, uma ilusão. Os eventos recentes no hemisfério norte sugerem que a resiliência não será encontrada em um endereço geográfico específico, mas na capacidade coletiva de mitigar a crise em sua origem. A fumaça não respeita fronteiras, e a crise climática, tampouco.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company