A fazenda de Giannis Papastergiou está silenciosa. No ano passado, ele encontrou os primeiros sinais de varíola em seu rebanho de ovelhas e cabras. Meses depois, todos os animais haviam sido abatidos por ordem do governo. “Imagine ter um cachorro pelo qual você morreria. Agora imagine ter tantos animais”, disse ele ao Business Insider. O silêncio na propriedade de Papastergiou é o mesmo que se espalha por mais de 2.600 fazendas gregas.
Desde que o surto começou em 2024, uma política sanitária drástica foi implementada para conter a doença altamente contagiosa. Onde quer que um caso apareça, rebanhos inteiros são sacrificados, incluindo animais saudáveis. A medida visa proteger uma indústria de US$ 1 bilhão e um selo de Denominação de Origem Protegida (DOP) que depende do acesso irrestrito ao mercado global. O custo, no entanto, é a ruína financeira e emocional de milhares de produtores.
O dilema do selo de origem
A crise colocou o governo grego diante de um paradoxo. A Comissão Europeia chegou a pressionar o país a iniciar uma campanha de vacinação. A Grécia recusou. Pelas regras da União Europeia, o uso de vacinas pode dificultar o rastreamento do vírus e, crucialmente, levar a uma proibição temporária das exportações de laticínios. Com 65% do feta grego vendido no exterior, o risco de um bloqueio comercial foi considerado alto demais.
A escolha foi pelo abate em massa. Até abril, mais de 488.000 animais foram sacrificados. A consequência imediata foi uma queda de 17% no rebanho de ovelhas do país entre 2024 e 2025. O impacto econômico, segundo estudos, pode ser mais danoso a longo prazo do que a vacinação. Além do custo financeiro, o abate em massa apaga décadas de trabalho de criação genética, cujo leite conferia ao feta seu sabor característico.
Da fazenda ao prato
A onda de choque se propaga por toda a cadeia produtiva. Alexandros Botos, proprietário da Roussas Dairy, um dos cinco maiores produtores de feta, viu 20 de suas fazendas fornecedoras serem forçadas a abater seus rebanhos. Ele agora paga 10% a mais pelo leite. A escassez já se reflete nos preços. Em junho, o quilo do feta no atacado custava mais de US$ 11, um aumento de 33% em relação ao ano anterior.
Em Atenas, o impacto chega à mesa. Katerina Katsouli, dona do restaurante Kriti desde 1988, viu o preço do quilo de feta que compra saltar de € 9 para € 13. “Tive que encontrar novos fornecedores”, lamenta. Para os produtores que ainda não foram atingidos, o medo é constante. “Todos os dias, quando o sol nasce, fico apavorado”, diz o criador Vagelis Karjoilis. A incerteza paira sobre o que encontrarão em seus estábulos a cada manhã.
Embora os números oficiais sugiram uma desaceleração dos surtos em 2026, o ceticismo permanece no campo. O abate de centenas de milhares de animais não significa apenas prejuízo financeiro. Significa, como resume Papastergiou, “choro na aldeia, incerteza, desemprego e ruína completa”. Enquanto a Grécia calcula o custo para proteger seu produto de exportação, a pergunta que ecoa nas fazendas silenciosas é sobre o preço pago pela alma do seu queijo mais emblemático.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





