A Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos Estados Unidos abriu uma nova frente na disputa tecnológica com a China, restringindo a importação de novos “dispositivos robóticos avançados” de fabricação estrangeira. A justificativa oficial aponta para “riscos inaceitáveis” à segurança nacional, afetando diretamente fabricantes chinesas como a Unitree, cujos equipamentos de custo relativamente baixo são amplamente utilizados por startups e centros de pesquisa americanos.

A decisão, no entanto, expôs uma fratura na própria indústria de robótica dos EUA. De um lado, fabricantes estabelecidos aplaudem a barreira protecionista contra rivais chineses, que acusam de se beneficiarem de subsídios estatais. Do outro, startups e pesquisadores alertam que a medida pode, ironicamente, deixar o país ainda mais para trás na corrida pela liderança tecnológica, segundo reportagem do Business Insider.

O dilema do hardware acessível

O cerne da discórdia está no acesso a hardware. Para uma startup ou um laboratório universitário, plataformas chinesas são muitas vezes a única opção viável. Robôs quadrúpedes da Unitree podem ser encontrados por valores a partir de US$ 3 mil, enquanto humanoides básicos começam em torno de US$ 6 mil. Em contraste, a maioria dos robôs humanoides americanos ainda está em fase de desenvolvimento e não está disponível para compra direta. A estimativa de Elon Musk para o custo de fabricação do Optimus, da Tesla, é de US$ 20 mil a US$ 25 mil — isso em escala, sem contar o preço final de venda.

Vedant Nair, cofundador da Miru, uma startup de software para robótica que passou pelo Y Combinator, afirmou ao Business Insider que o banimento irá “prejudicar severamente a capacidade de construir produtos úteis”. O argumento é que, sem acesso a hardware para testar e desenvolver software, a inovação fica estagnada. Pior: enquanto as startups americanas pausam seus projetos, as empresas chinesas continuarão vendendo para o resto do mundo, acumulando receita e, crucialmente, dados de uso real que podem ampliar ainda mais sua vantagem competitiva.

Soberania robótica vs. realidade de mercado

Para os defensores da medida, a questão transcende a competição de mercado. Evan Beard, CEO da Standard Bots, avaliada em US$ 1 bilhão, classificou a decisão como “uma das mais importantes ações comerciais da história dos EUA”. A visão é compartilhada pela Agility Robotics, que planeja um IPO a uma avaliação de US$ 2,5 bilhões. Em comunicado, a empresa afirmou que o banimento é um passo importante para mitigar riscos antes que robôs estrangeiros se tornem “profundamente inseridos em toda uma indústria, como aconteceu no mercado de drones”.

O argumento da segurança nacional não é abstrato. Pesquisadores já identificaram uma “backdoor” não documentada em um robô da Unitree que permitiria a um invasor assumir o controle do equipamento e acessar sua câmera. A própria FCC citou o risco de que dados coletados por esses dispositivos possam ser usados para vigilância ou para aprimorar serviços de inteligência estrangeiros. O objetivo, segundo analistas, é alcançar uma “soberania robótica”: garantir que o país controle a tecnologia da qual depende, em vez de importá-la de um rival geopolítico.

O debate que se instala opõe duas visões de política industrial para a era da inteligência artificial. De um lado, a criação de um ecossistema protegido para cultivar campeões nacionais. Do outro, a defesa de um mercado aberto que acelere a inovação de base, mesmo que isso signifique usar componentes de adversários estratégicos. A escolha que prevalecer definirá não apenas o futuro das startups do Vale do Silício, mas a própria capacidade dos EUA de competir em uma das arenas tecnológicas mais críticas do século.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider