Um músico e influenciador americano com quase 800 mil seguidores no Instagram declarou guerra à Flock, uma das mais controversas empresas de tecnologia de vigilância dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, Noah Orion publicou dezenas de vídeos e posts sobre a companhia, culminando na imagem de uma suposta notificação extrajudicial exigindo que ele cessasse suas críticas. O resultado: milhões de visualizações, dezenas de milhares de curtidas e um salto de 30 mil novos seguidores em um mês.

O problema, segundo uma apuração do site 404 Media, é que a notificação é falsa. O documento foi fabricado pelo próprio influenciador para gerar engajamento. O fenômeno expõe uma nova fronteira do marketing de influência, onde a performance de ativismo se torna um produto em si, cooptando um debate público complexo — a expansão da vigilância em massa — para benefício privado. A tática, embora eficaz para viralizar, arrisca diluir a credibilidade de quem realmente luta contra o avanço dessas tecnologias.

A economia do falso ativismo

O modus operandi de Orion é um manual de como transformar um conflito fabricado em um negócio. A cada post sobre a suposta ameaça legal, ele promove a venda de adesivos com a frase “Fuck Flock” e direciona seus seguidores para uma loja online. Ele chegou a criar um “fundo de fiança” para o caso de ser preso. A estratégia é desenhada para manipular o algoritmo do Instagram: os comentários em seus posts ativam um bot que envia automaticamente links para sua loja, convertendo indignação em tráfego e vendas.

Este não é um caso isolado, nem a primeira vez que Orion utiliza essa cartilha. Antes da Flock, ele construiu narrativas similares sobre a iminente apreensão de seu ônibus modificado ou seu despejo. A repetição sugere um modelo de negócio baseado na criação de um antagonista — seja a polícia, um senhorio ou uma corporação de tecnologia — para se posicionar como um rebelde e monetizar a audiência cativada pelo drama. Outras contas já começaram a replicar o formato, forjando notificações de outras empresas de tecnologia, como a Palantir, para promover seus próprios produtos e eventos.

O custo real da desinformação

Enquanto influenciadores performam uma batalha jurídica inexistente, ativistas e pesquisadores enfrentam ameaças reais da Flock. Projetos como o DeFlock, que mapeia a localização das câmeras da empresa, e o HaveIBeenFlocked, que expõe o uso dos dados por forças policiais, se tornaram alvos de fato. Seus criadores receberam notificações extrajudiciais autênticas, precisando do apoio de organizações como a Electronic Frontier Foundation (EFF) para se defenderem. A Flock também tentou derrubar a hospedagem de um desses sites, alegando que ele representava uma “ameaça à segurança pública”.

É aqui que o custo da desinformação se torna claro. Benn Jordan, um pesquisador que expôs falhas de segurança na tecnologia da Flock, argumenta que essas farsas fornecem munição para a empresa desacreditar toda e qualquer crítica. “Eles me enquadram como um YouTuber hiperbólico que está apenas inventando coisas para ganho pessoal”, afirmou Jordan em um vídeo. A própria Flock confirmou ao 404 Media que as notificações são falsas, reforçando que “acolhe e encoraja o debate público” sobre sua tecnologia — uma posição que se torna mais fácil de defender quando parte dos críticos está, de fato, inventando histórias.

A linha que separa a performance do ativismo nas redes sociais é cada vez mais turva. Embora o espetáculo possa, em tese, despertar a atenção de um público mais amplo para o tema da vigilância, a questão que permanece é o seu efeito colateral. Ao transformar uma causa complexa em um produto para gerar engajamento, esses atores arriscam descredibilizar um debate fundamental sobre privacidade na era digital. A busca por relevância algorítmica acaba por ofuscar a luta por direitos, e o ruído gerado beneficia justamente quem os ativistas genuínos tentam fiscalizar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media