A introdução das AI Overviews pelo Google acirrou uma guerra fria que já durava anos entre a gigante de busca e os veículos de mídia. Publishers, de portais de notícias a blogs de nicho, relatam uma queda vertiginosa no tráfego de referência, à medida que o Google passa a oferecer respostas diretas, geradas por inteligência artificial, que canibalizam os cliques que antes sustentavam seus modelos de negócio. A acusação é clara: o Google estaria se apropriando do valor gerado por conteúdo original sem a devida contrapartida.

O debate, no entanto, expõe uma contradição fundamental no ecossistema de conteúdo digital. Segundo uma análise contundente do portal Search Engine Land, muitos dos mesmos publishers que demandam atribuição e tráfego do Google se recusam a aplicar o mesmo princípio em suas próprias reportagens. A prática de usar dados, pesquisas e análises de terceiros sem fornecer um link clicável para a fonte original é endêmica, minando a lógica de uma web aberta e interconectada que eles afirmam defender.

A lógica do 'link equity' não se sustenta

A queixa dos publishers contra o Google é legítima em sua premissa. A criação de conteúdo original — seja uma reportagem investigativa, uma análise de dados ou um review de produto — exige investimento de tempo e recursos. Quando uma plataforma de IA utiliza esse conteúdo para treinar seus modelos e gerar respostas que mantêm o usuário em seu próprio ambiente, o criador original perde não apenas o tráfego, mas a oportunidade de monetização e de construir uma relação com sua audiência.

Contudo, a análise do Search Engine Land aponta que essa lógica extrativista é replicada em menor escala pelos próprios veículos. É comum encontrar artigos que citam “um estudo da empresa X” ou “dados da consultoria Y” sem um hiperlink que permita ao leitor verificar a informação, entender o contexto ou conhecer o trabalho original. A justificativa frequentemente se apoia em mitos de SEO, como o medo de perder “link equity” — uma noção ultrapassada de que linkar para fora “drena” a autoridade do seu site — ou a recusa em “ajudar o SEO” de um potencial concorrente. Essa mentalidade de soma zero transforma uma decisão editorial sobre transparência em uma estratégia mesquinha de retenção.

O 'nofollow' como muleta editorial

Mesmo quando o link é concedido, ele muitas vezes vem com um asterisco: o atributo rel="nofollow". Criado para sinalizar links pagos ou não endossados, o nofollow tornou-se uma ferramenta padrão para muitos publishers aplicarem a todos os links externos, por via das dúvidas. A intenção é dizer ao Google para não passar qualquer tipo de “crédito” ou autoridade para a página de destino. O resultado, como aponta a matéria original, é uma mensagem implícita: “Vamos usar seu trabalho e talvez até permitir que nossos leitores o encontrem, mas faremos o possível para que você receba o mínimo de valor em troca”.

Essa postura soa familiar? É precisamente a mesma crítica que os publishers fazem ao Google. A aplicação indiscriminada do nofollow em citações editoriais legítimas não é uma salvaguarda técnica, mas um sintoma de uma filosofia editorial defensiva. Se uma fonte é crível o suficiente para ser usada como base para uma matéria, ela deveria ser confiável o suficiente para receber um link direto e sem ressalvas. Negar esse gesto básico de reciprocidade não é proteger seu negócio; é replicar o comportamento que se critica e enfraquecer a credibilidade da própria queixa.

O impasse entre IA e criadores de conteúdo não será resolvido com discursos inflamados que não se sustentam na prática. Se os publishers esperam que as plataformas de IA citem e apoiem as fontes que alimentam suas respostas, eles precisam primeiro garantir que seus próprios padrões editoriais reflitam esse mesmo princípio. A web foi construída sobre a premissa do link como um gesto de conexão e validação. Exigir isso dos outros enquanto se recusa a praticá-lo não é apenas hipocrisia — é um tiro no próprio pé do ecossistema que se deseja preservar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Search Engine Land