O mercado global de celulares registrou sua pior performance para um segundo trimestre em mais de uma década. Os envios de aparelhos caíram 11%, segundo dados preliminares da Counterpoint Research, um tombo que reflete uma nova e poderosa dinâmica na indústria de semicondutores: a priorização da inteligência artificial.

A tese do mercado é que não se trata de uma queda cíclica de demanda, mas de uma crise de oferta com contornos estruturais. Fabricantes de componentes, especialmente de memórias, estão redirecionando sua produção para atender aos pedidos massivos e de alta margem de data centers que alimentam modelos de IA. Na prática, o apetite insaciável da nuvem por processamento está canibalizando a capacidade produtiva que antes servia ao mercado de eletrônicos de consumo.

Um jogo de soma zero

O resultado é uma bifurcação clara no mercado. De um lado, a Apple, com seu ecossistema fechado e foco no segmento premium, conseguiu não apenas resistir, mas crescer 3%, atingindo uma participação recorde de 20%. A Samsung, por sua vez, retomou a liderança global (24%) ao se beneficiar de sua linha de ponta e de uma estratégia de preços mais estável em mercados emergentes.

Do outro lado, as fabricantes com forte exposição aos segmentos de entrada e intermediário, como Xiaomi, Oppo e Vivo, sofreram as maiores quedas. É nesses aparelhos que a margem para absorver o aumento de custos dos componentes é menor, e o repasse para o consumidor se torna inevitável, deprimindo as vendas. A crise de chips de memória atinge em cheio o modelo de negócio baseado em volume e preço competitivo.

O novo normal do hardware

As perspectivas de curto prazo não são otimistas. A mesma Counterpoint Research projeta uma retração de 14% para o mercado de celulares no acumulado do ano e estima que a escassez de memórias pode se estender até 2027. O que parecia um gargalo temporário começa a se consolidar como uma nova realidade para a cadeia de suprimentos de tecnologia.

Para o consumidor, o impacto é direto: aparelhos mais caros ou com menor inovação nos segmentos de massa. A leitura aqui é que a revolução da IA, financiada por bilhões em capital de risco e pelos orçamentos das big techs, está criando um efeito colateral que pressiona todo o ecossistema de hardware. A disputa por cada wafer de silício tornou-se mais acirrada, e o bolso do consumidor de eletrônicos está sentindo o aperto.

O cenário atual levanta uma questão fundamental sobre a alocação de recursos na indústria de tecnologia. À medida que a corrida pela supremacia em IA se intensifica, qual será o custo de oportunidade para as outras frentes de inovação em hardware? O smartphone, antes o centro do universo digital, pode estar se tornando um ator secundário na disputa pelos componentes mais avançados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech