A proliferação de tecnologias como Inteligência Artificial, Internet das Coisas (IoT) e automação industrial está remodelando o mercado de trabalho de forma acelerada, mas não da maneira que o senso comum imagina. A principal transformação não é a substituição de humanos por máquinas, mas a redefinição das competências exigidas pelas empresas.

Segundo análise de Marcosiris Amorim Pessoa, membro sênior do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), a era da automação cria uma demanda por um novo perfil profissional. A leitura é que a discussão sobre o fim do emprego está mal calibrada; o foco real está na evolução das funções e na necessidade de adaptação contínua.

O profissional híbrido em cena

Ao contrário da percepção de que a IA eliminará postos de trabalho em larga escala, a principal mudança ocorre no perfil demandado. O mercado busca cada vez mais o chamado "profissional híbrido", capaz de unir conhecimentos de ciência de dados, engenharia de software e, crucialmente, uma profunda compreensão das necessidades do negócio. Os mais expostos aos impactos da automação não são os especialistas, mas os generalistas que dependem de tarefas repetitivas.

Para quem busca entrar neste mercado, o cargo de analista de dados continua sendo a porta de entrada mais realista, de acordo com o especialista. A posição permite desenvolver conhecimento sobre os processos da empresa e as ferramentas do setor, abrindo caminho para especializações futuras ou uma transição para a carreira gerencial.

O gap entre formação e mercado

Apesar do crescimento das oportunidades, as empresas enfrentam uma dificuldade crescente para encontrar talentos que consigam transformar soluções experimentais de IA em aplicações escaláveis e produtizadas. Existe uma demanda latente por profissionais capazes de levar projetos de machine learning do laboratório para o mundo real, um desafio mais operacional do que puramente científico.

Este gargalo é acentuado pela distância entre a formação acadêmica tradicional e a velocidade do mercado. As universidades fornecem a base teórica, mas as companhias precisam de profissionais com experiência prática e pouca necessidade de adaptação. A participação em projetos aplicados e o contato com desafios reais de negócio tornam-se, assim, diferenciais decisivos na contratação.

Nesse cenário, as habilidades técnicas são apenas o ponto de partida. A capacidade de construir narrativas, comunicar contextos complexos e alinhar expectativas entre diferentes áreas — algo que a IA ainda não domina — emerge como o verdadeiro diferencial competitivo. A comunicação e o storytelling, portanto, ganham protagonismo na era da automação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside