Uma mudança tectônica está em curso na gestão de grandes fortunas. Entre 2022 e 2025, cerca de US$ 1,5 trilhão em ativos sob gestão migraram de instituições financeiras tradicionais para novos players, segundo a 30ª edição do Relatório Global de Riqueza da Capgemini. O movimento expõe uma lacuna crescente entre a experiência personalizada que os indivíduos de alto patrimônio líquido (HNWIs) esperam e o que os modelos operacionais legados conseguem entregar.
A tese do relatório é que a inteligência artificial não é mais um diferencial, mas uma necessidade competitiva para estancar essa sangria. Para os players estabelecidos, o desafio não é apenas adotar a tecnologia, mas reinventar a função mais estratégica do setor: o gerente de relacionamento. A sobrevivência no novo cenário depende de transformar esse profissional em um orquestrador de soluções, e não mais um mero conselheiro.
De advisor a maestro
A nova fronteira competitiva, batizada de "Wealth AI" pela Capgemini, propõe uma redefinição de papéis. O gerente deixa de ser apenas um advisor para se tornar um "orquestrador", nas palavras de Daniela Dutra, líder de soluções para Banking da consultoria no Brasil. Nessa visão, o profissional humano não desaparece, mas se torna mais estratégico, usando ferramentas de IA para coordenar especialistas e entregar uma assessoria genuinamente personalizada.
A promessa é que a implementação de capacidades de IA pode reduzir a carga de trabalho operacional dos gerentes em até 50%. O tempo liberado seria realocado para tarefas de maior valor: conversas mais profundas com clientes, análise crítica e coordenação eficaz de produtos e serviços, algo que as máquinas ainda não conseguem replicar.
A disputa pela próxima geração
Essa transformação é impulsionada por uma nova geração de clientes, incluindo herdeiros que se beneficiam de grandes transferências de riqueza. Eles demandam acesso a mais classes de ativos e um nível de personalização que reflita seu estilo de vida, não apenas seu portfólio. No Brasil, onde o relatório identifica quase 166 mil HNWIs com uma riqueza combinada que deve chegar a US$ 5,1 bilhões em 2025, a pressão por sofisticação é similar.
Os números mostram que o investimento em experiência compensa. Cerca de 53% dos HNWIs satisfeitos recomendam sua gestora a outros, e 47% afirmam que consolidariam mais ativos com empresas que oferecem acesso integrado a especialistas. A capacidade de oferecer essa integração em escala, movida por IA, definirá os vencedores da próxima era da gestão de patrimônio.
O jogo mudou. A questão não é mais se a IA irá remodelar o private banking, mas quem dominará primeiro a arte da orquestração inteligente. A disputa entre incumbentes e novos entrantes agora se concentra em quem consegue entregar personalização e complexidade em escala.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





