Vinte anos após a aquisição de Blackadore Caye, uma ilha em Belice, Leonardo DiCaprio ainda não concretizou seu ambicioso projeto de um resort "restaurativo". A iniciativa, que visava combinar turismo de luxo com recuperação ambiental, prometia ser pioneira, mas acumula atrasos, polêmicas e questionamentos sobre a real capacidade de conciliar alto consumo com sustentabilidade.

O plano original, apresentado em 2015, previa a construção de 36 bangalôs e 36 vilas, operando com energias renováveis, sistemas de tratamento de água e resíduos, e uma estação de pesquisa climática. A meta era ambiciosa: cumprir o Living Building Challenge, um rigoroso padrão ambiental de autossuficiência. Medidas como o plantio de 20.000 mangues e a recuperação da vegetação nativa foram divulgadas, com a abertura inicialmente prevista para 2018. Contudo, o projeto, que também envolve o empresário Jeff Gram e Paul Scialla da Delos, segue sem data definida para inauguração.

O Custo da Conservação de Luxo

O Departamento de Meio Ambiente de Belice confirmou a aprovação da avaliação de impacto ambiental, mas isso não significa que as obras estejam concluídas ou que o ecossistema tenha se recuperado. Fontes indicam que DiCaprio mantém a propriedade, mas a ilha permanece fechada ao público. A construção enfrentou significativos atrasos devido a questões ambientais, barreiras regulatórias e a complexidade logística de implementar um desenvolvimento sustentável de ponta em um ecossistema delicado. A ausência de documentação que confirme a inauguração reforça a incerteza.

Críticas e Precedentes Ambientais

O projeto não esteve isento de controvérsias. Organizações como a Bonefish & Tarpon Trust expressaram preocupação com o impacto de estruturas sobre águas rasas em habitats pesqueiros cruciais. Embora os promotores tenham anunciado a retirada dos alojamentos sobre a água em 2016, a entidade solicitou a revogação da permissão, temendo precedentes futuros. A crítica mais ampla reside na própria premissa: um complexo de ultraluxo pode, de fato, equilibrar sua pegada ambiental com um modelo inerentemente de alto consumo? A questão permanece sem resposta clara.

Guafo: Um Contraste no Pacífico

Em contraste com o andamento lento de Blackadore Caye, a outra iniciativa de DiCaprio, a Isla Guafo no Chile, apresenta um cenário mais concreto. Em 2025, a organização Re:Wild, cofundada pelo ator, adquiriu a ilha com o objetivo de doá-la ao Estado chileno para a criação de um parque nacional. A ilha, rica em biodiversidade, abriga importantes colônias de aves marinhas e mamíferos. A proteção contra atividades extrativistas foi destacada por DiCaprio nas redes sociais, marcando um avanço mais tangível em seus objetivos de conservação.

Perguntas em Aberto

A trajetória de Blackadore Caye levanta questões sobre a eficácia e a transparência de projetos de conservação ligados a empreendimentos de luxo. A promessa de "curar a ilha" em 20 anos, sem uma entrega concreta, desafia a imagem de "salvador ambiental" frequentemente associada a celebridades. A viabilidade de modelos que buscam unir sustentabilidade radical com um público disposto a pagar por exclusividade extrema continua a ser um ponto de interrogação.

O futuro de Blackadore Caye permanece incerto, um lembrete da complexidade e dos desafios inerentes à transformação de visões ambientais em realidade, especialmente quando a escala do luxo é tão elevada. A comparação com a aquisição da Isla Guafo, embora em estágio inicial, sugere que o caminho da proteção ambiental pode seguir diferentes velocidades e modelos de execução.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España