A indústria de massas, por décadas um bastião de previsibilidade no setor de alimentos, viu seu modelo de negócios colapsar. A estabilidade deu lugar a uma nova linha de base: a volatilidade constante. A análise é de Carlo Stocco, diretor-geral da Andriani North America, em artigo de opinião para a revista Fast Company.

Para ele, o setor opera na intersecção de múltiplas crises: padrões climáticos que dizimam safras, disrupções no comércio global e um consumidor final pressionado. O argumento central é que, diante de um cenário onde a única constante é a mudança, o manual de operações tradicional tornou-se um passivo perigoso.

A Crise do Modelo e o Fator GLP-1

A fragilidade estrutural do setor, historicamente baseada na monocultura do trigo durum e em cadeias logísticas lineares, está sendo exposta por um fator inesperado: a rápida adoção de medicamentos da classe GLP-1, como o Ozempic. Com milhões de usuários alterando radicalmente sua ingestão calórica e a abordagem a alimentos ricos em carboidratos, o modelo de negócios focado em volume está sob ameaça direta.

A leitura é que a demanda não pode mais ser considerada um dado estável. Quando uma parcela relevante da base de consumidores muda seus hábitos de forma abrupta, estratégias de marketing ou descontos de preço se tornam insuficientes. A crise, portanto, não é apenas de oferta, mas de um desalinhamento fundamental com o novo perfil de consumo.

Reinvenção como Sobrevivência

A sobrevivência, segundo Stocco, exige abandonar a mentalidade de commodity. A saída passa por redesenhar produtos, diversificar as culturas agrícolas para além do trigo e investir em inovação. Outro pilar é a construção de cadeias de valor descentralizadas e mais próximas dos mercados consumidores.

Ao encurtar a distância entre o campo e a fábrica, os produtores mitigam riscos macroeconômicos, como o caos no frete marítimo e atritos regulatórios. Essa regionalização da cadeia de suprimentos transforma a resiliência de um jargão corporativo em um escudo defensivo, argumenta o executivo.

A lição, no fim, transcende a indústria de massas. Em todo o cenário de bens de consumo, as empresas mais bem posicionadas para o futuro serão aquelas projetadas para se adaptar em meio à incerteza estrutural, e não as que esperam um retorno à antiga normalidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company