Eles entraram como quaisquer outros visitantes. Compraram ingressos para o Museu de Artes Aplicadas de Viena (MAK) em plena luz do dia, sem máscaras, e se misturaram aos demais. O alvo era a exposição “Glanzstücke”, uma celebração da joalheria da Van Cleef & Arpels. Em meio à contemplação silenciosa de peças de alta ourivesaria, o som agudo de um martelo contra o vidro quebrou o encanto. Em segundos, um colar histórico estava nas mãos dos ladrões, que fugiram antes que a segurança pudesse reagir.

O peso da história

Não era apenas um colar. A peça de platina, cravejada com 673 pedras que somam mais de 200 quilates, é um fragmento da história. Criada pela Van Cleef & Arpels para a família real egípcia, foi usada pela rainha Nazli no casamento de sua filha, a princesa Fawzia, com Mohammad Reza Pahlavi, então príncipe herdeiro do Irã, em 1939. O valor de mercado, atestado por um leilão de US$ 4,3 milhões na Sotheby’s em 2015, é apenas uma métrica fria. Seu valor real reside na narrativa que carrega — um elo tangível com uma era de monarquias e alianças geopolíticas seladas com brilho e poder.

Um roteiro conhecido

A audácia do crime em Viena não é um caso isolado, mas parte de um roteiro preocupante para instituições culturais. A polícia austríaca, segundo o jornal Kronen Zeitung, suspeita de um roubo por encomenda, possivelmente orquestrado por um grupo criminoso dos Bálcãs. A memória de Viena ainda guarda a cicatriz do roubo da Saliera de Benvenuto Cellini em 2003, uma obra de valor incalculável levada do Kunsthistorisches Museum e recuperada três anos depois. Aquele episódio, como este, evidencia uma tensão inerente à missão dos museus: a necessidade de exibir o patrimônio da humanidade e a dificuldade em protegê-lo de quem o cobiça.

Após o roubo, o MAK fechou a exposição por tempo indeterminado. A vitrine quebrada e o pedestal vazio são um símbolo do paradoxo. O que acontece com um tesouro assim depois do crime? É desmontado, suas pedras vendidas uma a uma, sua história apagada? Ou repousa, intacto, no cofre de um colecionador que o admira em segredo, longe dos olhos do mundo para o qual foi feito?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews