Publicado originalmente em 1972, em plena ditadura de Francisco Franco, o romance “Adeus, Ramona” consolidou Montserrat Roig como uma voz incontornável da literatura catalã. A obra, que agora ganha novo fôlego em traduções internacionais, é um estudo preciso sobre como a grande história — a Guerra Civil Espanhola, a ascensão do fascismo — se manifesta no microcosmo da vida privada, especialmente na das mulheres.

O livro entrelaça a vida de três gerações de mulheres de uma mesma família em Barcelona, todas chamadas Ramona. Através delas, Roig não se propõe a recontar o conflito armado, um tema já extensamente explorado. A análise aqui é mais sutil e, por isso, mais universal. O interesse da autora, uma ativista feminista e antifascista, está no que acontece com essas mulheres enquanto homens em suas casas e no governo tomam decisões que ditam o rumo de suas vidas.

Três Gerações, Uma Luta

A estrutura do romance é seu maior trunfo analítico. A primeira Ramona, do final do século 19, vive uma vida de luxo superficial, mas sem liberdade pessoal, resignando-se ao seu papel. A segunda, sua filha, atravessa a brutalidade da Guerra Civil, e sua experiência com a violência e a perda a leva a uma aceitação pragmática da vida. É uma sobrevivente que admira a força da mãe, mas não ousa sonhar com mais.

É na neta, a terceira Ramona, que a tensão explode. Universitária nos anos 1960, ela se envolve na resistência acadêmica contra o regime franquista. Decepcionada com a passividade da mãe, a jovem Ramona tem ambições maiores, mas se vê caindo em armadilhas semelhantes, atrelando sua felicidade a um homem emocionalmente indisponível e tão consumido por suas ideias políticas que replica, na esfera pessoal, as mesmas estruturas de poder que diz combater.

Linguagem como Resistência

Escrever e publicar “Adeus, Ramona” em catalão foi, em si, um ato político. O regime de Franco buscou ativamente suprimir as línguas regionais como o catalão, o basco e o galego, impondo o castelhano como parte de um projeto de homogeneidade cultural forçada. A insistência de Roig em usar sua língua nativa era uma recusa direta a essa opressão, um testemunho de que uma cultura não pode ser simplesmente legislada para fora da existência.

O romance, portanto, opera em duas frentes de resistência: a temática, ao centrar a narrativa na experiência feminina sob o patriarcado e o fascismo; e a linguística, ao afirmar a validade e a vitalidade de uma identidade cultural ameaçada. A leitura que emerge, e que parece ressoar com força hoje, é que a luta pela liberdade se trava tanto nos campos de batalha quanto nas páginas de um livro, na escolha de uma palavra, na recusa em se calar.

O livro não oferece resoluções fáceis, mas deixa uma esperança hesitante, centrada na mais jovem das Ramonas. A obra de Roig serve como um lembrete de que a tirania, seja ela política ou doméstica, encontra sua maior ameaça naqueles que insistem em contar suas próprias histórias, em sua própria língua.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub