R.F. Kuang, uma das vozes mais incisivas da literatura contemporânea, está de volta com seu sétimo livro, "Taipei Story". Em uma longa entrevista ao portal literário Lit Hub, a autora sino-americana dissecou os temas que animam a obra: a relação íntima entre o aprendizado de uma língua e o sentimento de vergonha, as dinâmicas de poder na diáspora e a falácia da autenticidade cultural. O romance acompanha Lily, uma universitária que passa um verão em Taiwan para aprender mandarim, navegando a alienação e as complexidades de uma identidade fraturada.
Para quem acompanha a trajetória de Kuang, o movimento é familiar. Seja na crítica ao colonialismo em "Babel" ou na sátira sobre apropriação cultural em "Yellowface", seu método consiste em usar um enredo acessível para explorar estruturas de poder profundas. Em "Taipei Story", o cenário é um curso de idiomas, mas a investigação vai muito além. A tese de Kuang, e do livro, é que a experiência de se sentir vulnerável e "estúpido" ao aprender uma nova língua funciona como um microcosmo para as ansiedades de pertencimento que marcam a experiência da diáspora.
A pedagogia da humilhação
Kuang argumenta que há uma pedagogia na vergonha. A protagonista de "Taipei Story" é descrita pela autora como "brilhante nos livros, mas incrivelmente estúpida" na vida, uma dualidade que Kuang considera divertida e produtiva. O aprendizado de uma língua, para ela, é um exercício diário de humilhação. “A única maneira de melhorar é cometendo erros”, afirma na entrevista. A autora cita o ensaísta David Sedaris, que descreve a vergonha de aprender francês quase como um fetiche — um atrito necessário que sinaliza progresso. É uma mudança de perspectiva em relação a seus primeiros trabalhos, quando, admite, se preocupava excessivamente com a interpretação do leitor. Hoje, prefere “lutar visivelmente para aprender” na própria página.
Essa vulnerabilidade linguística expõe outra camada de análise: o que a teórica Rey Chow chama de “mito da consanguinidade”. Kuang ataca a noção de que a língua está no sangue. Em comunidades de diáspora, a fluência torna-se um jogo de poder, uma forma de estabelecer quem é “mais chinês” ou “mais conectado” à cultura de origem. A falta de fluência, por outro lado, gera uma vergonha que leva muitos ao silêncio. "Taipei Story", segundo a autora, se interessa em "separar os direitos de sangue ou etnia da habilidade linguística", tratando a língua não como herança, mas como prática.
Fantasias de conexão
Outro pilar do romance é o que Kuang chama de “fantasia de conexão”. Muitos membros da diáspora alimentam a crença de que, se apenas dominassem a língua de seus avós, conseguiriam destravar uma conexão profunda e acessar a verdade sobre a história de sua família. A protagonista Lily acredita que a única barreira para entender o passado de seu avô é seu mandarim precário. A realidade, no entanto, é mais complexa e dolorosa. Às vezes, as gerações mais velhas simplesmente não querem compartilhar suas histórias traumáticas.
Para a mãe e o avô de Lily, o fato de ela não saber o que aconteceu com a família no Camboja é um sinal de sucesso — eles sofreram para que ela não precisasse sequer pensar nisso. Lily, contudo, interpreta esse silêncio como rejeição. Essa tensão entre expectativa e realidade se desdobra em outras áreas, como no turismo. Kuang reflete sobre como a experiência de viajar é saturada por imagens e narrativas prévias, e como "turistas de herança", como Lily, sentem a pressão de serem guias culturais, mesmo sendo tão ignorantes quanto os outros. O aeroporto, cenário de abertura, clímax e desfecho do livro, funciona como esse espaço liminar, um portal onde a identidade está em constante negociação.
No fim, a jornada de Kuang como escritora espelha a de sua protagonista. Ela se afasta da busca por uma identidade rígida e correta para abraçar a confusão e a vulnerabilidade do processo de aprendizado. A lição parece ser que a verdadeira transformação não reside em encontrar respostas definitivas, mas em aprender a conviver com o desconforto das perguntas, seja numa sala de aula em Taipei ou nas páginas de um livro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





