Na paróquia rural de Perucho, a cerca de 35 quilômetros de Quito, um modesto galpão de 105 metros quadrados definhava. O que começou como um armazém de paredes de bloco de concreto foi se tornando uma casa aos pedaços, ao longo de anos de reparos improvisados. Quando os arquitetos Marie Combette e Daniel Moreno Flores, do estúdio La Cabina de la Curiosidad, encontraram a estrutura, a umidade já havia tomado as paredes e o pesado telhado de telhas de barro estava à beira do colapso.

A solução convencional seria a demolição. A resposta do estúdio, no entanto, foi mais poética e radicalmente econômica. Em vez de apagar o passado, eles o usaram como fundação. A casca de alvenaria permaneceu, mas o telhado em ruínas deu lugar a uma intervenção que transformou todo o volume do espaço, conforme detalhado pela revista Designboom. A falha estrutural tornou-se uma oportunidade.

Uma arquitetura de camadas

Acima das paredes antigas, ergueu-se uma estrutura leve de postes de eucalipto, criando um pé-direito duplo e um volume generoso o suficiente para uma ousadia: suspender dois quartos inteiros sob o novo teto. Os arquitetos os chamam de “ninhos”, uma alusão que conecta a casa à árvore Cholán que cresce no terreno. O resultado é uma arquitetura de camadas visíveis, onde o novo não esconde o velho, mas dialoga com ele.

O novo nível superior tem o caráter artesanal de uma construção montada com materiais locais. Postes de eucalipto formam a estrutura, bambu partido reveste as superfícies do teto e fibra de coco serve de isolamento térmico. Em uma solução de baixo custo, caixas de ovos foram usadas para o isolamento acústico sob o telhado metálico. A construção exposta confere aos quartos uma sensação híbrida, entre um loft e um abrigo, íntimos mas visualmente conectados ao espaço social abaixo.

O galpão que se abriu para a paisagem

Essa sobreposição estrutural permitiu o que o galpão original nunca teve: uma relação com a paisagem. Ao elevar o telhado, o estúdio introduziu luz natural e ventilação cruzada acima das paredes existentes, e as vistas agora se estendem para os campos e montanhas. Do lado de fora, o contraste é evidente: a base pálida de alvenaria encontra uma longa faixa de postes de eucalipto sob a ampla cobertura.

O princípio da economia circular é literal. A madeira do telhado desmontado foi reaproveitada para nivelar o piso entre a cozinha e a sala. A remoção de uma parede interna criou um espaço de convivência mais amplo e fluido, que se abre para o jardim. O que torna a Casa Ninhos de Cholán tão magnética é a honestidade desse processo. O projeto não disfarça a transição entre o armazém original e sua nova camada habitável.

Blocos de concreto, tábuas recicladas, postes de eucalipto e bambu trançado mantêm seus caracteres distintos, e a casa se torna um registro de sua própria reparação. Acima dos cômodos familiares da antiga construção, dois ninhos de madeira agora flutuam dentro do telhado, transformando uma estrutura de armazenamento em um lugar surpreendentemente aberto para viver e criar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom