A noite avança no ateliê em Columbia, Missouri. Ao som de cumbias e reggaetón, as mãos de Oswaldo García se movem em um ritmo preciso, quase meditativo. Dobra, dobra, dobra. Encaderna. O processo, que para um observador externo poderia parecer monótono, é para o artista mexicano um ritual de criação. "Às vezes é uma dobra e encadernação infinitas, e eu simplesmente passo o dia ou o fim de semana fazendo isso", contou ele em uma entrevista à publicação Hyperallergic.

É nesse espaço de repetição que a obra de García, um fotógrafo e impressor que se mudou do México para os Estados Unidos para um mestrado em Belas Artes, ganha corpo. Seu trabalho não acontece em um único lugar, mas em um ecossistema de estúdios: o principal, um laboratório fotográfico e uma sala de impressão risográfica. A fragmentação do espaço físico espelha seu processo mental. Ele trabalha em múltiplos projetos simultaneamente, alternando entre eles quando o cansaço de um se instala. A pausa não é procrastinação, mas uma forma de deixar a obra "respirar", como ele mesmo define, permitindo que novas composições e arranjos surjam da distância.

Entre o ruído e o silêncio

A trilha sonora do ateliê é um elemento central. A música — pop, regional mexicana, cumbia — acompanha a parte física do trabalho, o fazer manual da impressão e da encadernação. García conta que dança e canta muito durante essas fases. É uma explosão de energia que contrasta radicalmente com os momentos de concepção. Quando está pesquisando ou esboçando um novo projeto, o artista busca o "silêncio dos fones de ouvido".

Essa dualidade entre o ruído expansivo e o silêncio introspectivo define a dinâmica de seu estúdio, que ele descreve como uma "tela em branco" e um "espaço seguro". O ambiente ao redor também alimenta sua prática. O prédio, repleto de outros ateliês, o inspira a observar o processo de colegas, especialmente os que trabalham com cerâmica e fibras — materiais que ele mesmo começou a explorar recentemente. A criação, aqui, é um ato tanto solitário quanto comunitário, nascido da disciplina interna e da polinização externa.

O que falta? Paredes mais altas. O desejo, revelado quase como um aparte, aponta para uma ambição contida. Por enquanto, o espaço limita a escala, mas não a imaginação que encontra o infinito na repetição de um gesto. A questão que fica é o que acontece quando um artista com tamanha disciplina decide, finalmente, expandir suas telas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic