A Lua, por muito tempo considerada um ambiente estéril e inóspito, pode abrigar vida microbiana vinda da Terra. Um novo estudo publicado na revista Sciences Advances revela que micróbios comuns podem sobreviver por até uma semana em regiões sombreadas do polo sul lunar, justamente a área cobiçada para futuras missões tripuladas.

A descoberta, liderada por pesquisadores do Goddard Space Flight Center da NASA, chega em um momento crucial. Tanto o programa Artemis, dos Estados Unidos, quanto uma parceria sino-russa planejam levar astronautas à região na década de 2030. A principal razão é a presença de gelo de água, um recurso vital. Agora, a constatação de que nossos próprios micróbios podem sobreviver lá adiciona uma camada de complexidade e risco à nova corrida espacial.

Um oásis para micróbios

A chave para essa resiliência está nas condições únicas do polo sul lunar. Enquanto a maior parte da superfície é bombardeada por radiação e sujeita a temperaturas extremas, existem crateras em sombra permanente que oferecem um refúgio. Protegidos da luz ultravioleta e do calor, esses locais são persistentemente frios, criando um ambiente onde a vida, em estado dormente, pode persistir.

Utilizando dados do Lunar Reconnaissance Orbiter da NASA, a equipe modelou as condições em locais de pouso considerados para a missão Artemis, como a Crista Nobile. A análise mostrou que o fungo Aspergillus, um organismo comum em espaçonaves, se mostrou um verdadeiro “campeão” de sobrevivência, segundo os autores. Suas paredes celulares espessas e pigmentação escura o protegem da radiação, permitindo que entre em um estado de criptobiose — uma forma de animação suspensa — por até sete dias terrestres.

O dilema da contaminação

A implicação mais imediata é a da proteção planetária. A capacidade de sobrevivência microbiana significa que há um risco real de contaminarmos a Lua com vida terrestre, o que poderia comprometer a busca científica por amostras lunares primitivas ou, em um cenário mais remoto, por bioassinaturas nativas. Para as futuras tripulações, a possibilidade de patógenos persistirem na superfície também representa um novo fator de risco sanitário.

Segundo Prabal Saxena, o cientista que liderou o estudo, a surpresa não foi a possibilidade de sobrevivência em si, mas a extensão espacial e temporal em que ela pode ocorrer. A descoberta força uma mudança na maneira como a Lua é encarada, tanto do ponto de vista científico quanto operacional. Levanta-se, inclusive, a hipótese de que a Lua já funcione como uma “cápsula do tempo” da biologia terrestre, recebendo material através de impactos de meteoritos ao longo de éons.

A linha entre exploração e contaminação acaba de se tornar mais tênue. A nova corrida lunar não será apenas sobre fincar bandeiras, mas sobre gerenciar o rastro biológico que inevitavelmente deixamos para trás.

Com reportagem de Brazil Valley

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