Em março de 2020, uma cena se repetiu em escritórios de Madri a São Paulo: o recolhimento apressado de notebooks, monitores e pertences pessoais. A promessa implícita era que, passada a crise, uma nova era de flexibilidade se instalaria. Quatro anos depois, a realidade se mostra mais complexa e desigual.

Um novo relatório da Eurofound, a agência europeia que monitora condições de trabalho, quantifica essa divergência. Segundo a reportagem do site espanhol Xataka, o trabalho remoto na União Europeia quase triplicou desde 2015, alcançando 22% da força de trabalho. Na Espanha, contudo, o número patina em torno de 15%, somando os que trabalham de casa de forma habitual (7,8%) e ocasional (7,6%). O sonho do trabalho distribuído não se materializou para todos da mesma forma.

A geografia da produtividade

A explicação para o freio espanhol não está na tecnologia, mas na estrutura econômica. O relatório da Eurofound é claro: a viabilidade do trabalho remoto é setorial. Em países como Luxemburgo, onde o teletrabalho cresceu 30 pontos percentuais, o setor financeiro e de consultoria domina. Na UE, 53% dos profissionais de finanças e 42% dos de educação já atuam remotamente. Em contraste, setores cruciais para a economia espanhola, como agricultura (5%), comércio e hotelaria (9%), são intrinsecamente presenciais. A natureza do trabalho, mais do que o desejo do trabalhador, dita as regras. Essa clivagem se reflete na geografia interna do país, com centros corporativos como Madri e Catalunha muito à frente de regiões com maior peso do setor primário.

O peso da cultura

Além da matemática setorial, há um fator cultural. A estagnação espanhola coincide com a queda nas ofertas de emprego com opção remota e um endurecimento das políticas de retorno ao escritório em grandes empresas. O movimento sugere uma cultura de gestão que ainda valoriza o "presenteísmo" — a percepção de que estar no escritório é sinônimo de produtividade. O paradoxo, apontado pela reportagem, é que enquanto o setor privado hesita, o setor público espanhol passou a usar o trabalho remoto como um poderoso incentivo para atrair talentos. A flexibilidade virou moeda de troca, mas nem todos os empregadores estão dispostos a pagar. A "letra pequena" dessa nova dinâmica, como o direito à desconexão e a sobrecarga de trabalho fora de hora, especialmente para mulheres, mostra que a discussão está apenas começando.

O caso espanhol serve como um lembrete sóbrio. A revolução do trabalho remoto não é um evento único, mas um processo lento e desigual de negociação entre tecnologia, economia e, acima de tudo, cultura. A pergunta que fica não é se o trabalho será remoto, mas que tipo de trabalho — e para quem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka