Frank Gehry, falecido em 5 de dezembro de 2025 aos 96 anos, não foi apenas um arquiteto; ele foi o principal catalisador da transição da arquitetura para a era computacional. Enquanto o modernismo do século XX ditava que a forma deveria seguir estritamente a função, Gehry subverteu a máxima ao provar que a forma poderia seguir a pura imaginação, desde que sustentada por um processamento de dados rigoroso. Suas estruturas de titânio retorcido e aço inoxidável, antes consideradas inexecutáveis pela engenharia civil tradicional, forçaram a indústria a adotar ferramentas da engenharia aeroespacial. O impacto de Gehry transcende a estética: ele reescreveu a economia urbana contemporânea e estabeleceu um novo paradigma sobre o que o capital de risco e o poder público poderiam construir juntos.
O choque de Bilbao e a economia do design
O ponto de inflexão na carreira de Gehry ocorreu em 1997 com a inauguração do Museu Guggenheim em Bilbao, na Espanha. Antes da intervenção, Bilbao era uma cidade industrial em declínio, lutando contra a estagnação econômica e o desemprego. A estrutura de titânio de Gehry não apenas ancorou a revitalização da margem do rio Nervión, mas cunhou o termo "Efeito Bilbao" — a premissa de que uma única peça de arquitetura de classe mundial pode reposicionar uma cidade inteira na economia global.
Diferente da frieza geométrica de Mies van der Rohe ou do brutalismo funcionalista de Le Corbusier, Gehry tratava o metal como um tecido maleável. O sucesso de Bilbao provocou uma corrida armamentista entre prefeitos e desenvolvedores imobiliários globais. O design deixou de ser um custo marginal na planilha de construção para se tornar o principal ativo de atração de capital, turismo e talento. A arquitetura de assinatura tornou-se uma ferramenta de política econômica vital para centros urbanos em transição.
Essa lógica foi replicada e refinada em projetos subsequentes, como o Walt Disney Concert Hall, finalizado em 2003 em Los Angeles, e a Fondation Louis Vuitton, inaugurada em 2014 em Paris. Em cada caso, Gehry conseguiu convencer investidores céticos e conselhos de administração a apostar em orçamentos astronômicos, entregando retornos intangíveis em branding institucional que superavam em muito o valor contábil do metro quadrado construído.
A revolução silenciosa do CATIA
A verdadeira disrupção de Gehry, no entanto, ocorreu nos bastidores da prancheta. A complexidade de seus esboços exigia uma precisão matemática que os softwares de arquitetura dos anos 1980 e 1990 não conseguiam processar. A solução encontrada por seu escritório foi importar o CATIA (Computer-Aided Three-Dimensional Interactive Application), um software desenvolvido pela fabricante de aviões francesa Dassault Systèmes.
A adoção de ferramentas aeroespaciais permitiu que a Gehry Partners traduzisse modelos físicos de papelão e fita adesiva — como os usados na subversiva reforma de sua própria residência em Santa Monica, em 1978 — em coordenadas digitais exatas. Essa ponte entre o caos criativo analógico e a fabricação digital rigorosa eliminou o atrito entre o arquiteto e o empreiteiro. Em vez de desenhos bidimensionais, a equipe de Gehry fornecia modelos tridimensionais que orientavam diretamente as máquinas de corte de aço.
Esse fluxo de trabalho originou a Gehry Technologies, uma spin-off de tecnologia que democratizou essas ferramentas para outros escritórios antes de ser adquirida pela Trimble em 2014. A influência de Gehry no software de construção prefigurou a atual adoção de gêmeos digitais (digital twins) e modelagem de informações da construção (BIM). Ele provou que a inovação arquitetônica dependia fundamentalmente da inovação em software.
A morte de Frank Gehry marca o fim da era dos pioneiros que uniram arte escultural e tecnologia industrial, mas o ecossistema que ele ajudou a construir permanece intacto. Seu legado não reside apenas nas placas de titânio que refletem o sol em diferentes capitais do mundo, mas na infraestrutura tecnológica que tornou essas formas possíveis. O desafio não resolvido para a próxima geração de arquitetos é como aplicar o rigor computacional introduzido por Gehry não apenas para criar monumentos icônicos, mas para solucionar as crises de habitação e sustentabilidade climática que definem o presente.
Fonte · The Frontier | Architecture




