Nova York, 1947. Na galeria de Betty Parsons, na Rua 57, a vanguarda americana encontrava seu palco. Em questão de meses, seu espaço se tornaria o epicentro do expressionismo abstrato, com nomes como Jackson Pollock, Barnett Newman, Mark Rothko e Clyfford Still sob seu teto. Parsons tinha um dom raro: a capacidade de discernir o futuro da arte muito antes do mercado ou da crítica. Ela deu a primeira exposição a Robert Rauschenberg, Ellsworth Kelly e Agnes Martin. Defendeu mulheres, artistas queer e não-brancos quando nenhuma outra galeria o fazia.

O que poucos sabiam, e o que a história da arte convenientemente relegou a uma nota de rodapé, é que a mulher que orquestrava essa revolução era, ela mesma, uma artista. E sua obra, produzida ao longo de seis décadas, jamais foi exposta em suas próprias paredes. Uma grande retrospectiva, “Betty Parsons: An Expanded World”, no Hessel Museum of Art, busca agora corrigir essa omissão, revelando a complexidade de uma figura que foi muito mais do que a negociante por trás dos mestres.

A fabricante de reis

A trajetória de Parsons foi tudo, menos linear. Nascida em uma família abastada de Nova York em 1900, sua epifania artística veio aos 13 anos, no seminal Armory Show de 1913. “Decidi então que este era o mundo que eu queria”, diria mais tarde. Após um breve casamento, mudou-se para Paris, onde estudou escultura e integrou a comunidade de expatriadas que incluía Gertrude Stein e Sylvia Beach. De volta aos Estados Unidos nos anos 30, começou a expor sua própria arte, mas sua carreira como galerista rapidamente tomou a frente.

Seu sucesso como negociante foi construído sobre uma base de integridade radical. Parsons nunca alinhou suas escolhas ao mercado. Ela apostava no que era novo, no que a instigava, mesmo que as vendas fossem poucas. Essa coragem a tornou a parteira de um movimento inteiro, mas também a colocou em uma posição paradoxal. À medida que sua galeria ganhava reputação, sua carreira como artista recuava da esfera pública, como se uma persona devesse anular a outra.

A obra na sombra da galeria

A exposição em Bard College deixa claro que, privadamente, ela nunca deixou de criar. Sua jornada artística foi um caminho próprio, paralelo mas distinto dos gigantes que ela promovia. Seus primeiros trabalhos, aquarelas dos anos 20 e 30, já demonstravam um interesse pela abstração das formas na paisagem. A ruptura definitiva veio em meados dos anos 40, com pinturas abstratas que não se pareciam com nada que estava sendo feito na época, nem mesmo por seus próprios artistas.

Parsons utilizava acrílico, um meio então recente, e sua força residia em combinações de cores saturadas e improváveis, aplicadas com leveza. Obras como UFO (1974) mostram uma imaginação que bebia de suas viagens e da observação da natureza, mas traduzia tudo em um vocabulário visual singular, quase ideográfico. Havia uma inteligência visual afiada em tudo que fazia, uma busca que não se contentava com fórmulas prontas — nem as suas, nem as dos outros.

Em seus últimos anos, Parsons retornou ao seu primeiro amor, a escultura. Passava os dias recolhendo pedaços de madeira desgastada pelo mar em Long Island, montando-os em estruturas que lembram totens, faróis ou barcos. As peças são pintadas com listras de cores suaves, que honram a pátina do tempo no material. Nesses trabalhos, a explosão de cor de suas pinturas dá lugar a uma quietude, um reconhecimento sereno da passagem do tempo e do desejo de criar algo que perdure. Algo montado a partir daquilo que, como sua própria arte, foi por muito tempo deixado para trás pela maré.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews