O Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, em colaboração com a operadora de satélites Loft Orbital, realizou o primeiro teste em órbita de um modelo de linguagem de grande escala (LLM) para análise de imagens. O sistema, batizado de NAVI-Orbital, utilizou uma versão compacta do Gemma, o LLM de pesos abertos do Google, para interpretar imagens capturadas pelo próprio satélite, sem necessidade de enviá-las para a Terra.

O experimento representa mais do que um avanço técnico. Segundo reportagem da IEEE Spectrum, ele sinaliza uma mudança fundamental na forma como cientistas interagem com equipamentos espaciais e processam dados. A promessa é de uma operação mais ágil e inteligente, que contorna um dos maiores gargalos da exploração espacial: a largura de banda limitada para comunicação.

O fim do 'download' espacial

Enviar dados do espaço é um processo caro, lento e restrito. Satélites em geral só conseguem transmitir informações quando passam sobre estações terrestres, e o volume de dados de imagens de alta resolução pode facilmente sobrecarregar essa janela de comunicação. A solução testada pela NASA ataca esse problema com o que a Loft Orbital chama de “compressão semântica”.

Em vez de transmitir centenas de megabytes de uma imagem bruta, o satélite usa o LLM para analisar o conteúdo e enviar um resumo em texto, com apenas alguns kilobytes. Um alerta de incêndio florestal, por exemplo, poderia ser enviado como uma simples mensagem de texto com coordenadas, em vez de uma foto pesada, reduzindo o tempo de resposta de até 90 minutos para quase zero. O movimento transforma o satélite de uma câmera remota para um analista em campo.

De analista a copiloto

O segundo pilar da inovação está na interface de comando. Hoje, para direcionar um satélite, pesquisadores precisam escrever comandos estruturados e complexos, executados por uma equipe de operações. Com o NAVI-Orbital, a interação se dá por meio de "prompts" em linguagem natural. Um cientista pode simplesmente pedir ao sistema para procurar por áreas residenciais ou formações naturais em uma imagem.

Por enquanto, o sistema de IA opera em um ambiente isolado, sem acesso ao software de voo do satélite. Juan M. Delfa, líder técnico do projeto na NASA, descreve a capacidade atual como a de um analista que observa e reporta. No entanto, a arquitetura abre a porta para um futuro onde a IA não apenas analisa, mas também auxilia na tomada de decisões operacionais, otimizando a própria missão em tempo real.

O teste da NASA não se trata apenas de colocar um LLM em órbita, mas de validar um novo paradigma operacional para a exploração espacial. A mudança é de equipamentos passivos, que coletam dados brutos, para agentes inteligentes capazes de interpretar e agir com um grau de autonomia. É um passo crucial para missões mais distantes, complexas e eficientes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · IEEE Spectrum — AI