O que antes era uma conversa de consultório médico virou o principal motor de crescimento do varejo farmacêutico brasileiro. Medicamentos para perda de peso da classe dos análogos de GLP-1, como Ozempic e Mounjaro, deixaram de ser um produto de nicho para se tornarem um pilar estratégico e financeiro para as maiores redes de farmácias do país.

Segundo reportagem do Money Times, o mercado das chamadas “canetas emagrecedoras” já movimentou R$ 10 bilhões no Brasil desde 2021. A leitura aqui não é apenas sobre uma nova categoria de sucesso, mas sobre uma transformação estrutural no modelo de negócio de companhias listadas em bolsa, cuja performance passa a ser atrelada ao ciclo de vida de uma classe específica de fármacos.

O motor do balanço

O impacto já é visível nos resultados trimestrais. Gigantes como a RD Saúde, dona da Droga Raia e Drogasil, e a rede Pague Menos, reportam que a categoria GLP-1 já representa entre 9% e 12% de suas receitas totais. Para empresas que operam com margens apertadas e alto volume, um dígito duplo vindo de uma única classe de produtos é mais do que relevante — é transformacional.

Analistas de mercado que cobrem o setor já incorporaram a tese em seus modelos e projetam que a participação desses medicamentos pode chegar a 20% das vendas totais até 2030. O crescimento futuro das varejistas, portanto, está diretamente ligado à popularização e ao acesso contínuo a esses tratamentos, criando uma nova dinâmica de dependência.

A corrida pelos R$ 50 bilhões

Os números atuais parecem ser apenas o começo. As projeções de curto prazo apontam para um mercado anual de R$ 20 bilhões. Olhando para o fim da década, o potencial é ainda mais expressivo. Relatórios do Itaú BBA e da consultoria PwC, citados pela reportagem, estimam que o mercado brasileiro formal de medicamentos para obesidade pode atingir R$ 50 bilhões até 2030.

Dois fatores principais devem destravar esse crescimento. O primeiro é a expiração das patentes dos medicamentos de marca, que abrirá caminho para versões genéricas mais acessíveis. O segundo é a consequente expansão do tratamento para as classes B e C, que hoje têm acesso limitado devido ao alto custo. Essa democratização promete multiplicar a base de consumidores.

Para as grandes redes de varejo, a estratégia parece clara: capitalizar ao máximo a onda dos GLP-1. A questão que fica é o quão expostas suas teses de crescimento se tornam a um único, ainda que poderoso, vetor. A dependência que hoje impulsiona os balanços pode, no futuro, se tornar um risco estratégico concentrado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times