O mapa da riqueza na América Latina foi redesenhado, mas o Brasil não se moveu. Segundo a mais recente classificação de renda do Banco Mundial, o número de economias consideradas de “alta renda” na região saltou de apenas três em 1987 para dezenove em 2025. O dado, à primeira vista, sugere um avanço notável em prosperidade e desenvolvimento.
A realidade, contudo, é mais complexa e menos lisonjeira para as grandes potências regionais. A análise dos dados, detalhada em reportagem da Bloomberg Línea, revela que essa ascensão é impulsionada majoritariamente por pequenas nações do Caribe, beneficiadas por turismo, serviços financeiros e, em casos como o da Guiana, um explosivo boom de petróleo. Para as grandes economias, como Brasil, México e Argentina, o diagnóstico é de estagnação: presas na “armadilha da renda média”, elas observam a prosperidade seletiva de vizinhos enquanto lidam com seus próprios demônios estruturais.
Riqueza contábil vs. desenvolvimento real
A metodologia do Banco Mundial classifica os países com base na Renda Nacional Bruta (RNB) per capita em dólares. Esse limiar é ajustado anualmente, o que o torna um “alvo móvel”, como descreveu Jonathan Fortun, economista do Instituto de Finanças Internacionais (IIF). Uma nação pode ultrapassar essa linha por meio de uma valorização cambial ou um choque favorável nos preços de suas commodities, sem que isso represente um ganho real de produtividade. O caso da Guiana, cujo PIB per capita foi multiplicado pela exploração de petróleo, é emblemático: para Fortun, trata-se mais de um “salto contábil do que desenvolvimento”.
Em contraste, os casos de sucesso sustentado na região — Chile, Uruguai, Panamá e, mais recentemente, Costa Rica — seguiram um roteiro distinto. Esses países construíram sua prosperidade sobre pilares de estabilidade macroeconômica e institucional, políticas econômicas críveis e uma integração inteligente à economia global. O Panamá se consolidou como um hub logístico e financeiro; a Costa Rica atraiu investimentos em tecnologia médica e serviços de alto valor. Não foi um golpe de sorte, mas o resultado de décadas de disciplina e foco estratégico. “Nenhum deles tentou fazer de tudo. Escolheram um caminho e defenderam as instituições em torno desse caminho”, aponta Fortun.
A armadilha brasileira
Para Brasil, México, Colômbia e Peru, a realidade é outra. O próprio tamanho de suas populações torna o desafio de elevar a renda média exponencialmente mais difícil. Como observa o economista do IIF, “aumentar a renda média de 213 milhões de brasileiros [...] exige uma produtividade de base ampla que nenhum nicho pode substituir”. Essas economias parecem ter esgotado os “ganhos fáceis”, como a migração da mão de obra do campo para a cidade e o superciclo das commodities, sem construir em seu lugar um motor de inovação e capital humano que caracteriza as economias desenvolvidas.
O paradoxo, segundo a análise, é que o vasto mercado interno pode atuar como uma âncora, reduzindo a pressão para que as empresas se tornem competitivas em escala global. Elas se otimizam para o lucro local em vez de buscar o mercado externo. Somam-se a isso os problemas crônicos de alta informalidade, baixo nível de investimento e instabilidade macroeconômica e institucional. O resultado é uma estagnação de produtividade que, diante de um alvo móvel, equivale a um retrocesso relativo. A “armadilha da renda média”, no fundo, é uma armadilha de produtividade.
Para que economias do porte do Brasil consigam dar o salto, não basta um ciclo favorável de commodities ou uma valorização temporária da moeda. O caminho exige anos de crescimento real da renda, inflação controlada, segurança jurídica e, acima de tudo, uma melhora estrutural na produtividade. A classificação do Banco Mundial serve como um lembrete sóbrio: enquanto alguns vizinhos se especializam e avançam, o Brasil corre o risco de ficar para trás, um gigante aprisionado pelo seu próprio peso e pela falta de um motor de crescimento sustentável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





