Em 2014, dois cientistas políticos, Martin Gilens de Princeton e Benjamin Page de Northwestern, publicaram um estudo com uma conclusão devastadora: nos Estados Unidos, a maioria não governa. Analisando décadas de dados, eles descobriram que as políticas públicas com alto apoio de uma pequena “elite econômica” tinham chances notavelmente altas de serem implementadas, enquanto os desejos da maioria dos cidadãos tinham “pouca ou nenhuma influência independente”. Na prática, a democracia americana era um oximoro.
Na época, o estudo causou poucas ondas. Questões como a desigualdade de renda ainda eram marginais no debate público, e o trabalho, denso em jargão acadêmico, foi rapidamente esquecido. Olhando em retrospecto, no entanto, a análise se provou não apenas precisa, mas profética. Ela foi o sinal de alerta para uma transformação estrutural que já estava em curso e que, na década seguinte, se tornaria inegável: a consolidação de uma oligarquia americana, operando à vista de todos, mas protegida por uma complexa arquitetura financeira e política.
A Arquitetura da Desigualdade
A escala da concentração de riqueza nos EUA hoje supera qualquer período histórico, inclusive a chamada “Gilded Age” dos barões da indústria no final do século XIX. Entre 1980 e 2014, a renda do 0,001% mais rico explodiu em mais de 600%, enquanto a dos 50% mais pobres estagnou. Hoje, a classe bilionária do país detém mais riqueza do que a metade inferior da população combinada. Visualmente, a distribuição de ativos se assemelha a um bumerangue deitado: uma base longa e quase plana para as classes baixa e média, e uma ponta que dispara verticalmente para o infinito, representando a fortuna de pouquíssimas famílias e indivíduos, completamente descolada do resto da economia.
Essa decolagem não foi um acidente, mas o resultado de um projeto. A análise, detalhada no livro “United States of Oligarchy” de Casey Michel, aponta para dois pilares. O primeiro é a ascensão do mundo “offshore”: uma teia de empresas de fachada, paraísos fiscais e jurisdições com sigilo financeiro que permitiu que trilhões de dólares simplesmente desaparecessem dos livros contábeis nacionais. Esse sistema não serve apenas para sonegar impostos, mas para criar, nas palavras da especialista Brooke Harrington, da Universidade de Dartmouth, “a plataforma para uma insurgência de elite” contra princípios como igualdade perante a lei e solidariedade social.
O Desmonte Político
O segundo pilar foi a demolição sistemática das ferramentas que antes continham a concentração de poder econômico. Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA mantinham alíquotas de imposto de renda sobre os mais ricos acima de 90%, um consenso que perdurou sob presidentes de ambos os partidos, como Franklin D. Roosevelt e Dwight Eisenhower. O ponto de virada veio nos anos 60, com John F. Kennedy, que propôs cortes sob o argumento de estimular a economia — uma justificativa curiosa, dado que os anos anteriores haviam registrado um crescimento robusto. A porteira estava aberta.
O golpe de misericórdia veio com Ronald Reagan nos anos 80. Sob a bandeira da economia “trickle-down”, Reagan pulverizou a tributação sobre os mais ricos. A alíquota máxima, que era de 69% quando ele assumiu, desabou para 28% ao final de seu mandato, patamar onde permanece com poucas alterações desde então. Em paralelo, o imposto sobre herança, outro pilar das reformas anti-oligarquia do início do século XX, foi igualmente esvaziado. Com isenções cada vez mais generosas, ele hoje atinge apenas 0,08% da população, tornando-se pouco mais que um erro de arredondamento e permitindo a perpetuação de fortunas dinásticas.
A coexistência entre uma democracia nominal e uma oligarquia funcional é, por definição, instável. O cientista político Jeffrey Winters argumenta que ambas podem operar simultaneamente, até o ponto em que não podem mais. A questão que paira sobre a América, e por extensão sobre outras democracias ocidentais que seguem uma trajetória semelhante, não é se, mas quando, os interesses da elite econômica e da maioria dos cidadãos se tornarão irreconciliáveis. E, principalmente, quais ferramentas de contrapeso restarão à maioria quando esse dia chegar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





