A imagem do surf está permanentemente associada às praias da Califórnia e às ondas monumentais do Havaí, berço de sua popularização moderna. Uma história menos contada, no entanto, desloca essa origem em milhares de quilômetros e algumas centenas de anos. Um poema de Joshua Bennett, publicado no periódico 3 Quarks Daily, usa a pesquisa do historiador Kevin Dawson para iluminar um fato notável: o primeiro registro conhecido do surf data dos anos 1640, no território que hoje corresponde a Gana.
Essa descoberta não é um mero rodapé na história do esporte. Ela reposiciona a gênese cultural do surf do Oceano Pacífico para o Atlântico, da Polinésia para a África Ocidental. Longe de ser apenas uma atividade de lazer, a prática estava profundamente enraizada nas comunidades locais, entre pescadores e mercadores que dominavam os padrões das marés e navegavam em canoas capazes de surfar ondas de até três metros de altura.
Uma maestria ancestral
O poema descreve uma cena vívida: jovens na Costa do Ouro do século 17, deslizando sobre pranchas de quase quatro metros de comprimento. A prática era chamada de “contar os mares”, uma expressão que denota uma profunda sintonia e conhecimento do oceano. Não se tratava de uma simples diversão, mas de uma forma de “comungar com deuses que cultivavam reinos ali”, no movimento frenético das águas, como escreve Bennett.
Essa conexão era também material e espiritual. As embarcações eram feitas de madeiras consideradas sagradas, que, segundo a crença, guardavam as almas de crianças ainda não nascidas. A prancha, nesse contexto, funcionava como uma ponte entre o mundo físico e o ancestral. Era uma linguagem corporal e espiritual para dialogar com o mar, um domínio onde a técnica se fundia com o ritual.
A narrativa e a memória
Ao resgatar essa origem, o poema de Bennett toca em um ponto sensível: o apagamento de narrativas não-ocidentais. A história do surf, como tantas outras, foi editada ao longo dos séculos, privilegiando a versão que se tornou comercialmente e culturalmente dominante. A prática africana, com sua complexidade e dimensão espiritual, ficou submersa.
Bennett evoca um futuro imaginário, uma cidade celestial onde não existe a palavra “cair”. Essa utopia contrasta com a realidade histórica da perda cultural. A redescoberta das raízes africanas do surf não diminui a importância do Havaí ou da Califórnia, mas enriquece o esporte com uma herança mais antiga e global.
A questão que emerge não é sobre qual origem é mais autêntica, mas sobre como a incorporação dessa memória pode transformar a identidade de uma cultura globalizada. O surf, afinal, sempre foi sobre encontrar uma forma de caminhar sobre as águas, e a história mostra que diferentes povos encontraram seus próprios caminhos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 3 Quarks Daily





