Enquanto o mercado de capitais calibra os riscos do ciclo eleitoral, a Petrobras opera com uma força que parece subestimada. Relatórios recentes do Bradesco BBI e do BTG Pactual, compilados pelo InfoMoney, convergem em um ponto central: as projeções de produção da estatal para os próximos anos são conservadoras e devem ser revisadas para cima, impulsionadas por uma performance operacional robusta e ganhos de eficiência.

A tese é que a companhia chega a este período de incerteza política em uma posição estruturalmente mais sólida do que em ciclos anteriores. A discussão transcende o ruído de curto prazo sobre política de preços ou alocação de capital. O que está em jogo é uma máquina de produção no pré-sal operando acima das expectativas, gerando um caixa que funciona como uma blindagem contra a volatilidade inerente a uma empresa estatal em ano de eleição.

A máquina do pré-sal

O motor do otimismo dos bancos é a performance dos ativos da Petrobras, que consistentemente supera as projeções. O campo de Búzios continua sendo o principal vetor de crescimento, com poços individuais entregando mais de 30 mil barris por dia e novas plataformas, como a P-79, entrando em operação antes do previsto. O BTG Pactual destaca que o FPSO Almirante Tamandaré chegou a produzir 263 mil barris diários em julho, bem acima de sua capacidade nominal de 225 mil.

Mas a história não se resume a Búzios. O campo de Tupi, um dos mais maduros do pré-sal, apresentou uma taxa de declínio de produção de apenas 2% nos últimos três anos, muito abaixo do padrão da indústria, graças a um gerenciamento de reservatório mais sofisticado. Adicionalmente, a revitalização da Bacia de Campos, um ativo frequentemente ignorado, já adicionou cerca de 130 mil barris diários com novos FPSOs e tem mais nove projetos de revitalização previstos até 2028. A mensagem é clara: os ganhos são sistêmicos, não pontuais.

O balanço como blindagem

Essa eficiência operacional se traduz diretamente em um balanço mais resiliente. O BTG argumenta que a Petrobras combina crescimento de produção com ativos de baixo custo, forte geração de caixa e uma estrutura de governança mais robusta. Essa combinação cria uma base financeira capaz de absorver choques e sustentar o plano de investimentos e a remuneração aos acionistas, mesmo sob estresse político. O banco projeta um dividend yield entre 10% e 11% para 2027, nível superior ao de suas pares globais.

Com base nesse cenário, ambos os bancos revisaram suas estimativas. O Bradesco BBI vê a produção podendo superar 3 milhões de barris diários em 2028, o que elevaria em até 10% o valor estimado para a companhia. O BTG, por sua vez, elevou seu preço-alvo para as ações PETR4 para R$ 65 ao fim de 2027. A leitura é que, embora a discussão sobre a política de preços e dividendos permaneça, a capacidade da empresa de gerar valor a partir de seus ativos-chave é inegável e fornece um colchão de segurança.

A discussão para o investidor, portanto, muda de figura. Não se trata de negar o risco político, mas de ponderar se a força operacional e financeira da Petrobras atingiu um patamar que lhe permite navegar pela turbulência com mais autonomia do que o mercado atualmente atribui em seus modelos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney