Quando o Ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou que pipas seriam tratadas como drones e que seus operadores poderiam ser alvos letais, a declaração soou surreal. Contudo, ela expõe uma lógica profunda que rege o conflito para além do campo militar. A ameaça não reside no objeto em si — um brinquedo feito de papel, linha e varetas —, mas no que ele representa: uma criança palestina que sobrevive, brinca e, ao fazê-lo, imagina um céu para além da ocupação.

Este é o argumento central de um recente e contundente ensaio da publicação literária americana Lit Hub. A análise sugere que Israel trava uma guerra não apenas contra militantes, mas contra a própria noção de um futuro palestino. Nesta ótica, a alegria infantil se torna um ato de rebelião, e a supressão da infância, uma política de Estado. A tese se baseia em um velho adágio colonial: “os velhos morrerão e os jovens esquecerão”. A aposta de Israel, segundo o texto, seria que as gerações nascidas após a Nakba de 1948 eventualmente se assimilariam e abandonariam a memória de sua terra. A pipa no céu de Gaza é a prova de que a aposta falhou.

O símbolo da sobrevivência

A transformação de um brinquedo em alvo militar revela o que o poder colonial mais teme: a criança que sobrevive à sua violência e continua a imaginar um mundo fora de seu controle. A esperança, argumenta o ensaio, é a forma mais jovem de rebelião. Um palestino não precisa pegar em armas para ameaçar um Estado construído sobre a premissa de seu desaparecimento. Basta que ele envelheça, lembre-se e transmita o direito à terra — um direito que não se apaga com o tempo ou com o deslocamento forçado.

Esta guerra contra o futuro se manifesta, segundo a publicação, em diversas frentes. O Lit Hub relembra episódios como o fechamento de escolas e universidades durante a Primeira Intifada, que forçou aulas a acontecerem em mesquitas e residências, e a repressão a jardins domésticos. Mais recentemente, em 2018, durante a Grande Marcha do Retorno em Gaza, manifestações pacíficas que incluíam dança, pão e casamentos foram recebidas com força letal, resultando em centenas de mortos e milhares de feridos. A lógica é consistente: onde houver um vislumbre de vida normal e autônoma, a ocupação agirá para sufocá-lo.

A estratégia da anulação

A análise vai além, documentando ataques a festas de casamento, a crianças jogando futebol na praia e a agricultores durante a colheita de azeitonas. O ensaio argumenta que não se tratam de incidentes isolados, mas de uma estratégia deliberada para tornar a vida palestina insuportável, até que a partida possa ser registrada como um ato de “emigração voluntária”. É uma tática de anulação cultural e social, que visa confinar um povo inteiro ao luto, impedindo que a imaginação deseje algo para além da sobrevivência.

O texto diferencia a resiliência — termo que, na visão do autor, pode romantizar o sofrimento sem acusar quem o causa — do conceito palestino de sumud (firmeza, perseverança). Sumud não é uma admiração passiva pela capacidade de suportar a dor, mas uma postura política ativa que nega ao colonizador a vitória de registrar a história com o sangue dos oprimidos. É a reconstrução de universidades com escombros, a recuperação de sementes nativas e a restauração de livros em mesquitas bombardeadas. É a insistência em existir e construir, mesmo sob cerco.

O que o ensaio do Lit Hub propõe é que a questão fundamental não é apenas sobre território, mas sobre o direito de imaginar. A alegria de uma criança empinando uma pipa é uma pergunta incômoda: quem seriam os palestinos se a sobrevivência não consumisse toda a sua energia? O colonialismo não pode permitir essa pergunta, pois ela presume o seu fim. A pipa, voando livre, sugere que o céu ainda é maior do que aqueles que o ocupam, e que a vontade de viver sempre irá superar a vontade de dominar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub