Os nomes que definem o skyline global estão reescrevendo suas próprias plantas. Uma pesquisa aprofundada do portal especializado em design e arquitetura Dezeen revelou que os mais proeminentes estúdios do mundo, de Foster + Partners e SOM a Zaha Hadid Architects (ZHA), não estão apenas flertando com a inteligência artificial, mas incentivando ativamente seu uso. De 26 firmas de ponta que responderam à publicação, 25 já integraram a IA em seus processos, sinalizando uma mudança tectônica no setor.

O movimento vai muito além da simples busca por eficiência. A adoção de IA está sendo enquadrada como a próxima grande transição tecnológica da profissão, comparável à migração do desenho à mão para o CAD e, posteriormente, para o Revit. A leitura é que ignorar a IA não é uma opção, mas um risco de obsolescência. O debate interno nos estúdios não é mais se a tecnologia deve ser usada, mas como integrá-la de forma estratégica para liberar tempo, potencializar a criatividade e, em última instância, redefinir o que um arquiteto faz.

Da automação à ideação

O ponto de entrada para a maioria dos estúdios tem sido a automação de processos repetitivos e de baixo valor criativo. David Gianotten, sócio-diretor do escritório holandês OMA, afirmou à Dezeen que uma porção crescente da prática arquitetônica envolve verificação e tarefas logísticas que consomem tempo e desviam o foco do pensamento de design. Ao delegar essas atividades para algoritmos, os arquitetos podem se concentrar em observação, pensamento crítico e desenvolvimento de ideias. A norueguesa Snøhetta ecoa o sentimento, afirmando que a IA é "excelente para otimizar fluxos de trabalho e reduzir o tempo que nossos arquitetos gastam em tarefas não criativas".

Contudo, o uso rapidamente transcendeu o administrativo. A IA generativa está sendo empregada nas fases iniciais de concepção para acelerar a iteração de conceitos e melhorar o diálogo com clientes. O estúdio americano HOK utiliza as ferramentas para explorar mais alternativas na fase conceitual, enquanto a sueca White Arkitekter relata que a capacidade de visualizar ideias rapidamente torna o cliente mais participativo. A geração de imagens, antes um processo caro e terceirizado para estúdios de visualização, também foi internalizada. Segundo o CF Møller, da Dinamarca, o uso do Photoshop caiu 80% graças à IA generativa. Ferramentas como Stable Diffusion e Gemini's Nano Banana estão democratizando a criação de renderizações sofisticadas, permitindo que mais membros da equipe participem do processo visual.

Ferramentas, políticas e o fator humano

A suíte de ferramentas é variada. O LLM Claude.ai, da Anthropic, desponta como um dos favoritos, mas o ecossistema inclui Gemini (Google), Microsoft Copilot e ChatGPT. Mais reveladora é a tendência de desenvolvimento de sistemas internos. Mais da metade dos estúdios, incluindo gigantes como Foster + Partners, Gensler e OMA, estão criando suas próprias plataformas de IA. A motivação é clara: controle, personalização e, acima de tudo, segurança. Em um setor que lida com propriedade intelectual valiosa e dados confidenciais de clientes, usar modelos de linguagem públicos representa um risco inaceitável. Sistemas proprietários garantem que informações sensíveis permaneçam dentro de casa.

A velocidade da adoção, porém, expõe uma lacuna de governança. Dos estúdios que incentivam o uso de IA, apenas 19 confirmaram ter políticas formais estabelecidas. Onde existem, as diretrizes focam em integridade profissional, precisão, confidencialidade e mitigação de vieses. A preocupação com a privacidade dos dados é central para firmas como ZHA e Foster + Partners. Outros, como o chinês MAD, admitem incentivar a exploração da tecnologia mesmo sem uma política formal ainda em vigor, refletindo a tensão entre a corrida pela inovação e a necessidade de estabelecer salvaguardas éticas e legais robustas.

No fim, há um consenso entre os líderes do setor: a IA é uma ferramenta para ampliar, e não substituir, a criatividade humana. As máquinas são excelentes em certas tarefas, mas, como pontuou um associado do MAD, podem ser "repetitivas, imprecisas ou não criativas o suficiente". A tecnologia pode acelerar processos, mas a responsabilidade final pelo projeto, com todas as suas implicações éticas e funcionais, permanece firmemente nas mãos do profissional humano. A questão que fica no ar não é sobre a substituição do arquiteto, mas sobre a evolução de seu papel em um ateliê cada vez mais híbrido.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen Architecture