Em análise recente publicada pela The Economist, a correspondente Sarah Wu examina a maior transferência de riqueza já registrada na história da China. A acumulação de patrimônio privado é um fenômeno estritamente moderno no país. Após a fundação da República Popular em 1949, Mao Zedong praticamente erradicou a iniciativa privada por meio das revoluções comunista e cultural. O cenário mudou apenas a partir de 1978, quando Deng Xiaoping iniciou a abertura econômica sob a premissa de que era necessário deixar alguns enriquecerem primeiro para, posteriormente, alcançar a prosperidade comum. Hoje, a publicação projeta que, na próxima década, cidadãos chineses com patrimônio líquido superior a US$ 5 milhões transferirão mais de US$ 2 trilhões para a próxima geração. Trata-se de um volume inédito para uma nação historicamente desprovida do chamado old money.

O choque cultural do planejamento

A formação dessa nova elite hereditária não se restringe aos super-ricos. Embora a China tenha registrado 470 bilionários em 2025 — ficando atrás apenas dos 924 dos Estados Unidos —, a classe média de 500 milhões de pessoas também acumulou ativos substanciais por meio do aumento de renda e da privatização de propriedades.

O repasse desse capital, contudo, esbarra em barreiras tradicionais. A The Economist aponta que a China é uma sociedade confucionista, onde o debate sobre a morte é ativamente evitado. Como resultado, o planejamento sucessório não é uma prática natural. A reportagem cita um estudo indicando que, dos 67 fundadores ou chefes de empresas chinesas de capital aberto falecidos nas últimas duas décadas, apenas seis haviam deixado testamentos conhecidos.

A ausência de clareza sucessória tem gerado uma explosão de litígios. Entre 2006 e 2015, os tribunais chineses registraram quase 90 mil julgamentos de disputas por herança. Na década seguinte, a partir de 2015, esse número quase quintuplicou, evidenciando a urgência jurídica trazida pelo envelhecimento rápido da população e pelo volume de ativos em jogo.

Demografia e inércia estatal

A dinâmica de transferência é agravada pelas políticas demográficas do Estado. Como a política do filho único só foi relaxada em 2016, os herdeiros atuais frequentemente recebem patrimônios integrais que, sob outras circunstâncias, seriam divididos entre múltiplos irmãos. Em um momento de desaceleração do crescimento econômico chinês, a dependência de ativos herdados para ascensão social cresce vertiginosamente, alimentando a desigualdade.

Diante desse cenário, a imposição de impostos sobre heranças desponta como uma solução técnica evidente. No entanto, a publicação destaca que o Partido Comunista tem postergado a implementação dessa política há décadas. Para contexto editorial, a BrazilValley nota que a relutância em taxar sucessões na segunda maior economia do globo contrasta com a prática de diversas nações desenvolvidas, que utilizam o tributo como mecanismo clássico de freio à perpetuação de dinastias financeiras.

A inércia governamental carrega um risco ideológico profundo. A análise conclui que, se o Estado não intervir na taxação dessas fortunas, o país corre o risco de corroer a crença popular de que o trabalho duro é o melhor caminho para o sucesso. A consolidação de uma elite hereditária testa as promessas de prosperidade comum do regime, transformando a riqueza privada da primeira geração de bilionários em um desafio existencial para o modelo político chinês.

Source · @theeconomist