Dois novos livros de pensadores proeminentes da psicologia evolucionista, Owen Jones, da Universidade Vanderbilt, e Rob Kurzban, ex-professor da Universidade da Pensilvânia, estão gerando debate. As obras, respectivamente "Force of Nature" e "All the Feels", buscam aplicar a lógica da seleção natural para decodificar desde o sistema legal até o espectro das emoções humanas. Embora elogiados pela profundidade da pesquisa, os livros são alvo de uma crítica incisiva, articulada em uma resenha do portal 3 Quarks Daily.
O ponto central do questionamento não é a validade da teoria da evolução, mas sua aplicação como uma espécie de chave-mestra universal. A crítica aponta uma semelhança com o marxismo: onde um vê a luta de classes como motor de toda a história, o outro enxerga a vantagem reprodutiva como a causa fundamental de todo comportamento. A tese é que, ao tentar encaixar cada sentimento e decisão humana nessa métrica, a psicologia evolucionista corre o risco de se tornar redutora e, por vezes, desconectada da própria realidade que pretende explicar.
O martelo da vantagem reprodutiva
Ambos os autores partem de uma premissa poderosa. Para Kurzban, em "All the Feels", nossas experiências e sentimentos existem porque medem algo útil e motivam comportamentos que, historicamente, contribuíram para a sobrevivência e reprodução. Jones, em "Force of Nature", expande essa lógica para campos como o direito e a inteligência artificial. A ideia é que compreender os fundamentos evolutivos do comportamento pode iluminar e resolver problemas complexos nessas áreas.
Para ilustrar, o resenhista usa um exemplo simples: por que o sexo é prazeroso? A resposta evolucionista é direta. Indivíduos que sentiam prazer no sexo o praticavam mais, gerando mais descendentes que, por sua vez, herdavam essa característica. A população para quem o sexo era divertido simplesmente venceu a competição reprodutiva. O problema, aponta a crítica, não está em explicações como essa, mas na tentativa de aplicar o mesmo rigor mecânico a sentimentos mais complexos, onde a lógica se torna mais forçada e menos convincente.
Quando a explicação perde o sentido
É nos exemplos mais difíceis que o modelo mostra suas fissuras. Ao tentar explicar por que a diversão é divertida, as respostas se tornam vagas: seria um treino para situações reais, um sinal de aptidão física, e assim por diante. A crítica se torna mais ácida ao analisar a explicação de Kurzban para a dor do luto. Citando um estudo, o autor sugere que a tristeza pela morte de um filho é maior quando este estava mais próximo da idade reprodutiva, refletindo a perda de um potencial sucesso reprodutivo.
Para o resenhista do 3 Quarks Daily, esse tipo de raciocínio é tão distante da experiência humana que evoca a famosa fala de Woody Allen no filme "Annie Hall": "Preciso ir agora, estou de volta ao planeta Terra". O problema se agrava quando Kurzban descarta as explicações da psicologia social para o sentimento de admiração — ligadas a "propósito" e "conexão" — por não fazerem sentido "da perspectiva da psicologia evolucionista". É aqui que o framework se revela uma faca de dois gumes: em vez de expandir a compreensão, ele pode acabar se fechando em seu próprio dogma, descartando o que não se encaixa na sua métrica.
A questão que permanece não é se a evolução moldou a natureza humana, mas se a vantagem reprodutiva é a única lente através da qual devemos entendê-la. Ao buscar uma teoria de tudo para o comportamento, corre-se o risco de transformar a ciência em uma igreja, com respostas prontas que, embora logicamente consistentes dentro de seu sistema, podem esvaziar a riqueza, o mistério e a complexidade da própria vida que se propõem a analisar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 3 Quarks Daily





