As linhas brancas de uma quadra de tênis em Valência, na Espanha, parecem seguir as regras do jogo por um instante. Logo, porém, elas se multiplicam, dobram-se em gradientes metálicos e mergulham em direção a um centro que não existe. A superfície familiar do esporte parece desabar, camada por camada, em um loop óptico que desafia a percepção.
Esta é “Hard Court 2”, uma intervenção do artista urbano espanhol Spok Brillor. A obra foi criada durante uma residência de 12 dias na Casa Axis, o espaço criativo fundado pelo artista Felipe Pantone. Mais do que uma pintura, a quadra é o troféu vivo de uma competição singular: o C.A.I.O. (Casa Axis International Open), um torneio de tênis que coloca artistas em disputa.
A arte como prêmio (e próxima tela)
A regra central do C.A.I.O. é o que o torna um experimento único: o campeão do torneio não ganha apenas um troféu, mas a responsabilidade de transformar a quadra para a edição seguinte. A superfície de jogo torna-se, assim, uma tela rotativa. Em 2025, o artista Lucas Benarroch (MRKA) venceu a edição inaugural e cobriu a quadra com sua geometria irregular e gestual. Este ano, a tarefa foi entregue a Spok.
Em vez de apagar as marcações regulamentares, Spok as usou como matéria-prima. Ele partiu da geometria existente e a replicou em escalas cada vez menores, puxando o olhar para um suposto abismo. Onde a intervenção anterior explorava a liberdade do traço manual, a de Spok se baseia na repetição rigorosa, criando uma ilusão de profundidade a partir da lógica da própria quadra.
A geometria do abismo
Vindo da cena do graffiti de Madri dos anos 1990, Spok Brillor frequentemente explora temas de ficção científica, reflexos e dobras espaciais em suas obras. Em “Hard Court 2”, esses interesses encontram uma aplicação literal. A quadra de tênis, um desenho espacial por si só, torna-se a tela para uma representação de si mesma, mas em colapso.
De certos ângulos, a pintura cria a ilusão de um portal, um buraco de vários níveis no chão. De outros, a imagem se achata e a superfície de jogo real volta a ser visível. É uma obra que joga com o espectador e, presumivelmente, com os próprios jogadores. A arte, a imagem representada e a superfície funcional são, ao mesmo tempo, a mesma quadra.
Este portal pintado sobre o asfalto, no entanto, já nasce com uma data de validade. O próximo torneio determinará seu fim e o começo de outra coisa. Resta a pergunta: como se joga tênis à beira de um abismo, mesmo que ele seja feito apenas de tinta e perspectiva?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





