A frágil maioria de Donald Trump no Senado enfrenta um teste de fogo. A senadora republicana Lisa Murkowski, do Alasca, anunciou na sexta-feira que votará contra a nomeação de Todd Blanche para o cargo de procurador-geral dos Estados Unidos, o chefe do Departamento de Justiça. A decisão, reportada pela revista Fortune, estreita drasticamente a margem para a confirmação e transforma a votação em um referendo sobre os contornos do poder presidencial.
Murkowski junta-se à também republicana Susan Collins na oposição, o que significa que Trump não pode perder mais nenhum voto de seu partido, assumindo que todos os democratas votem em bloco contra o nomeado. Com a ausência do senador Mitch McConnell, o destino de Blanche está agora nas mãos de um único homem: o senador Bill Cassidy, da Louisiana, que ainda não declarou sua posição. O episódio é menos sobre a qualificação de Blanche e mais sobre uma disputa interna a respeito da instrumentalização da Justiça.
O preço da lealdade
A resistência de Murkowski não é protocolar. Ela citou preocupações com a integridade do Departamento de Justiça sob a influência de Trump, apontando para um controverso fundo de US$ 1,8 bilhão proposto para compensar aliados do presidente que se sentiram injustiçada ou perseguidos por investigações. Embora Blanche tenha formalmente rescindido a proposta, a senadora expressou desconfiança de que a medida não seja ressuscitada após sua eventual confirmação. “O país precisa de um procurador-geral que controle os piores impulsos desta administração”, afirmou Murkowski.
Além do fundo, o acordo que concede a Trump e sua família imunidade em auditorias fiscais passadas pesou na decisão. Dois outros senadores republicanos, John Cornyn e Thom Tillis, haviam ameaçado bloquear a nomeação por essas mesmas razões, mas recuaram após Blanche oferecer garantias por escrito. Para Murkowski, as garantias foram insuficientes, um sinal de que, para uma ala do partido, a lealdade a Trump tem um limite institucional.
O jogo dos números no Senado
Com a oposição de Murkowski e Collins, a matemática da confirmação tornou-se implacável. Sem margem para erro, a pressão sobre Bill Cassidy é imensa. Seu voto definirá não apenas o próximo chefe do Departamento de Justiça, mas também o nível de autonomia que o Congresso está disposto a tolerar do Executivo. A Casa Branca joga pesado, com Trump ameaçando levar adiante o fundo de compensação caso a nomeação de seu escolhido não seja aprovada.
A articulação expõe as linhas de falha no Partido Republicano. De um lado, uma facção pragmática que, embora tenha sido apaziguada com concessões, demonstrou desconforto com o avanço sobre as instituições. Do outro, moderados como Murkowski e Collins, que traçam uma linha vermelha clara. O voto de Cassidy funcionará como um termômetro para medir qual dessas forças prevalecerá na definição dos rumos do partido.
A votação sobre o nome de Todd Blanche transcende uma simples confirmação de gabinete. Ela se tornou um campo de batalha simbólico sobre a independência do sistema de Justiça e a capacidade do próprio Partido Republicano de impor freios a um presidente que testa constantemente os limites do poder. O resultado, qualquer que seja, enviará um sinal claro sobre a saúde dos contrapesos institucionais nos Estados Unidos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





