Enquanto o mercado imobiliário americano enfrenta uma crise de acessibilidade, um novo relatório do site especializado Realtor.com oferece um diagnóstico claro: o problema, e a solução, podem estar na política local. O estudo avaliou as 100 maiores áreas metropolitanas do país e revelou que as cidades mais amigáveis para compradores de imóveis não são as mais óbvias, mas aquelas que facilitam a construção de novas moradias.
A análise coroa Des Moines, em Iowa, e Raleigh, na Carolina do Norte, como as melhores cidades para se comprar uma casa, refletindo uma divisão geográfica nítida. O topo do ranking é dominado por municípios do Meio-Oeste e do Sul dos EUA, enquanto os piores colocados se concentram na Califórnia e no Nordeste. A tese central é que a flexibilidade regulatória é mais decisiva para o preço final do que a simples disponibilidade de terrenos.
A política por trás do preço
O ranking da Realtor.com cruza dois eixos: a capacidade de compra dos moradores locais frente aos preços de listagem e o volume de novas construções para atender à demanda futura. As cidades com nota máxima, como Houston, Austin e Indianápolis, compartilham um ambiente de negócios favorável à construção civil, com processos de licenciamento ágeis e regras de zoneamento menos restritivas. A maioria possui um preço mediano de imóveis abaixo de US$ 450 mil.
Segundo os economistas responsáveis pelo estudo, um padrão curioso emerge: muitas dessas localidades são “cidades azuis (democratas) em estados vermelhos (republicanos)”. Essa dinâmica, segundo a reportagem da Fast Company, permite que os municípios adotem políticas pró-habitação com autonomia, sem enfrentar as mesmas barreiras ambientais e regulatórias estaduais que emperram projetos em estados como a Califórnia.
O custo da burocracia
No outro extremo do espectro, a rigidez cobra seu preço. Metrópoles como Los Angeles, Boston, Nova York e São Francisco receberam a pior avaliação. Em Los Angeles, última colocada, o preço mediano de um imóvel ultrapassa US$ 1,1 milhão, e a atividade de licenciamento para novas construções é menos da metade da média nacional.
O contraste entre Austin (nota A) e Boston (nota F) ilustra o argumento de forma contundente. Boston possui quatro vezes mais páginas de leis de zoneamento do que Austin. Além disso, 79% do solo de Boston é rigidamente zoneado, contra apenas 15% na capital do Texas. A conclusão, segundo os analistas, é que as regras sobre o que se pode construir são tão ou mais importantes do que a terra disponível para a construção.
O debate sobre o acesso à moradia é global e reverbera em grandes centros urbanos brasileiros, que também enfrentam seus próprios desafios de zoneamento e custo. A experiência americana, capturada no relatório, serve como um estudo de caso sobre como a desregulamentação e o incentivo à oferta podem ser ferramentas cruciais para aliviar a pressão sobre os preços e tornar o sonho da casa própria uma realidade mais tangível.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





