Uma fornecedora de saladas prontas na Espanha viu seu faturamento saltar 19% em um ano, para € 163,7 milhões, e o lucro avançar quase 23%, para € 11,5 milhões. Os números da Verdifresh, parte do Grupo Foodiverse, seriam notáveis por si sós, mas se tornam ainda mais expressivos quando comparados ao crescimento de 10% do setor como um todo. A explicação para o desempenho acima da curva não está em uma inovação disruptiva, mas em um nome: Mercadona.

O caso da Verdifresh, detalhado em reportagem do site espanhol Xataka, é um estudo sobre a arquitetura de negócios da maior varejista da Espanha. A Mercadona, com quase 30% de participação de mercado, opera com um ecossistema de "interfornecedores" — empresas que produzem quase que exclusivamente para sua marca própria, a Hacendado. Estar nesse clube significa embarcar em um foguete, mas com um só piloto.

O ecossistema Mercadona

O modelo cria uma simbiose poderosa. De um lado, a varejista garante controle sobre a qualidade, o custo e o fornecimento de produtos alinhados às tendências de consumo, como alimentos de "quarta e quinta gama" (vegetais prontos para consumo e pratos prontos). Do outro, o fornecedor ganha escala e previsibilidade de demanda, atrelando seu crescimento ao da gigante. A Verdifresh não é um caso isolado: segundo o jornal Cinco Días, os 20 maiores fornecedores da Mercadona viram suas vendas conjuntas crescerem 18% em 2024, superando € 12 bilhões.

A estratégia, no entanto, embute um risco sistêmico. A dependência de um único cliente, por mais dominante que seja, concentra o destino do fornecedor nas mãos de um só parceiro. Qualquer mudança na estratégia da Mercadona, ou uma eventual perda de mercado da varejista, impactaria diretamente e de forma drástica toda a sua cadeia produtiva. É o preço pago pela escala acelerada.

Para o ecossistema de varejo, o modelo da Mercadona oferece uma lição sobre a criação de fossos competitivos através da integração vertical de fato, se não de direito. A Verdifresh prospera, mas sua prosperidade é um reflexo direto da hegemonia de sua única cliente. A pergunta que fica no ar é sobre a sustentabilidade e a resiliência de um modelo que aposta todas as fichas em um único número.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka