Nos últimos anos, a narrativa do mercado sobre a Lojas Renner foi de uma estrela que perdeu o brilho. A fórmula de crescimento com eficiência, que a consagrou na bolsa, parecia ter se esgotado. Diante de juros altos, o avanço de concorrentes asiáticas e a queda no retorno sobre o capital investido (ROIC), a varejista precisava de uma resposta contundente. Ela veio na forma de um investimento de R$ 1,3 bilhão em Cabreúva, interior de São Paulo.
O mega centro de distribuição, o maior da história da companhia, é a aposta da gestão do CEO Fabio Faccio para reverter o ceticismo e recolocar a empresa em sua trajetória de crescimento rentável. Segundo reportagem do Brazil Journal, que visitou a operação, o projeto é visto internamente como um movimento "transformacional", capaz de colocar a Renner "pelo menos sete anos à frente da concorrência" e ser a base para cumprir as ambiciosas metas de longo prazo, incluindo elevar o ROIC de 14,7% para 20% até 2030.
A arquitetura da eficiência
A essência da transformação em Cabreúva reside na mudança de um modelo de distribuição em "packs" para uma operação totalmente baseada em SKU (Stock Keeping Unit). Antes, as lojas recebiam caixas fechadas com uma proporção fixa de tamanhos. Agora, cada peça é separada individualmente, permitindo que o estoque de cada loja seja customizado com precisão cirúrgica. Uma unidade em Fortaleza pode receber mais peças tamanho P, enquanto uma em Porto Alegre recebe um lote maior de tamanhos G, refletindo o comportamento de compra de cada praça.
Este modelo, já utilizado por gigantes globais como Zara e H&M, ataca diretamente um dos maiores problemas do varejo de moda: as sobras e as faltas de estoque. A reposição mais inteligente evita remarcações agressivas para desovar produtos que não vendem e, ao mesmo tempo, maximiza as vendas ao garantir que o produto certo esteja na prateleira certa. Segundo a empresa, os recordes de margem bruta registrados nos últimos dois trimestres já são um reflexo direto desses ganhos de eficiência, e não de aumentos de preço.
Plataforma para o futuro
O complexo de Cabreúva foi desenhado para ser mais do que um depósito; é uma plataforma logística que integra completamente as operações de lojas físicas e do e-commerce. A mesma peça pode ser despachada para uma loja ou diretamente para a casa do cliente, unificando o estoque e tornando o canal online tão ou mais rentável que o físico. A infraestrutura serve a todas as marcas do grupo — Renner, Youcom, Camicado e Ashua —, otimizando a entrega para todo o ecossistema.
A leitura aqui é que a Renner está construindo uma vantagem competitiva estrutural. Essa eficiência abre caminho para o desenvolvimento de novas marcas internamente, como no segmento de athleisure, sem a necessidade de aquisições. Uma nova linha de produtos já nasceria com acesso a uma máquina logística de ponta. É também a resposta estratégica da companhia à concorrência das plataformas asiáticas: em vez de depender apenas de barreiras tarifárias, a aposta é na superioridade operacional.
O investimento bilionário em Cabreúva é, portanto, uma declaração de intenções. A Renner está dobrando a aposta em seu core business, o varejo, deixando a operação financeira Realize em um plano secundário. O mercado agora observa se a alavanca da eficiência será suficiente para tracionar também o crescimento das vendas, validando uma das mais ousadas jogadas do varejo brasileiro recente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech

