Um cume de granito. Uma árvore bastaria. Ou uma rocha, um pequeno riacho. A paisagem de "Piute Creek", do poeta americano Gary Snyder, começa com o suficiente, mas logo transborda. Uma lua imensa sobre as montanhas dobradas e retorcidas é "demais". A mente, diante do excesso, vagueia. Não para o futuro ou o passado, mas para um tempo geológico, de um milhão de verões, com o ar noturno parado e as rochas ainda quentes.
Nesse estado, escreve Snyder, "toda a tralha que vem com o ser humano / Desaparece". O peso do presente cede, o coração se torna uma bolha frágil. Palavras e livros, os tijolos com que construímos nossas certezas, evaporam como um riacho no ar seco. O que sobra é uma mente "clara e atenta", cujo único significado é o ato de ver e ser verdadeiramente visto. É um esvaziamento radical. A natureza não oferece consolo ou propósito; ela apenas é. Sua vastidão indiferente serve como um solvente para o ego.
O paradoxo central do poema reside na frase "Ninguém ama a rocha, mas estamos aqui". Somos atraídos por essa indiferença, por essa paisagem que não nos pede nada e não nos oferece nada além de sua própria existência. É um espelho que não reflete nosso rosto, mas a nossa ausência. A experiência não é de comunhão, mas de dissolução. O humano se torna um visitante, um intruso cuja importância é, no máximo, passageira.
Ao final, o observador se levanta para ir embora, mas não está sozinho. Na sombra de um zimbro, um movimento. Olhos "frios e orgulhosos" de um puma ou coiote o observam, invisíveis. É a imagem persistente de um mundo que continua a existir, indiferente e completo, muito depois de nos retirarmos de cena.
Com reportagem de Brazil Valley
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