Uma investigação do Ministério Público de São Paulo, que culminou na Operação Vectura Corrupta, aponta que o Primeiro Comando da Capital (PCC) controlaria, em tese, 12 das 22 empresas que operam o sistema de transporte coletivo da maior cidade do país. A dimensão da infiltração foi descrita como algo que “salta aos olhos” pelo desembargador Sérgio Ribas, do Tribunal de Justiça de São Paulo, na decisão que autorizou a ofensiva.

A operação, que cumpre 16 mandados de prisão, mira não apenas operadores do crime, mas também figuras políticas, como o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite. O caso sugere que a atuação da facção transcendeu o tráfico de drogas para se tornar um conglomerado sofisticado, com braços em contratos públicos, política e outros setores, levantando questões sobre a captura de serviços essenciais pelo crime organizado.

Do tráfico à licitação

A investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) desenha a evolução do PCC de uma organização criminosa focada em narcotráfico para uma holding com interesses empresariais complexos. O controle de linhas de ônibus não serve apenas para a lavagem de dinheiro em larga escala, mas também como um ativo estratégico que garante controle territorial, logístico e social em vastas áreas da metrópole.

Segundo a decisão judicial, a estrutura operava com “divisão de tarefas e subordinação entre os envolvidos”, utilizando pessoas interpostas e articulações políticas para se beneficiar de contratos públicos. É a mimetização de uma estrutura corporativa, operando nas sombras de um serviço essencial e financiado pelo contribuinte, o que representa um novo patamar de desafio para o Estado.

O custo da captura

As ramificações extrapolam a esfera criminal. Quando um serviço público vital é supostamente gerido por uma facção, a integridade de todo o sistema é posta em xeque. A suspeita lança dúvidas sobre a qualidade e a segurança do transporte para milhões de passageiros diários e sobre a lisura dos processos licitatórios que permitiram essa infiltração.

O envolvimento de um político do calibre de Milton Leite, que negou as acusações, sinaliza o potencial alcance da influência do grupo nas esferas de poder. A captura de um serviço público não é apenas um negócio lucrativo; é uma demonstração de força que corrói a legitimidade do Estado e a confiança da população nas instituições.

A Operação Vectura Corrupta abre uma janela para a simbiose entre crime e poder em São Paulo. O desafio agora não é apenas punir os envolvidos, mas entender como a estrutura se tornou tão robusta e quais as vulnerabilidades institucionais que permitiram seu avanço. A questão que fica é sobre a capacidade do poder público de reaver o controle de um serviço tão fundamental para a vida urbana.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times