O sol do Mediterrâneo que banha as Ilhas Baleares não tem sido suficiente para arrefecer os ânimos políticos. Um decreto aprovado em regime de urgência pelo governo local, liderado por Marga Prohens, do conservador Partido Popular, tornou-se o epicentro de um debate que transcende a burocracia e toca no coração do projeto de sociedade espanhol: o futuro da educação.

A medida altera o financiamento das escolas "concertadas" — instituições privadas que recebem subsídios públicos para operar, um modelo que também existe, com suas particularidades, no Brasil. A oposição, na voz de Rosario Sánchez, do partido socialista (PSIB), acusa o governo de "inverter o modelo" e colocar a rede pública em segundo plano. A crítica principal, segundo reportagem da Forbes España, é que a nova norma importa para as ilhas o chamado "modelo Ayuso", uma referência à controversa e popular presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso.

O espectro de Madri

Invocar o "modelo Ayuso" é acionar um alarme ideológico na política espanhola. A expressão sintetiza uma agenda de liberalização econômica, cortes de impostos e uma aposta clara em parcerias com o setor privado para a gestão de serviços públicos, como saúde e educação. Para seus defensores, é um modelo de eficiência e liberdade de escolha. Para os críticos, é a precarização do estado de bem-estar social e a privatização disfarçada de serviços essenciais.

Ao acusar o governo balear de seguir essa cartilha, Rosario Sánchez não critica apenas uma peça legislativa. Ela aponta para o que considera ser uma ofensiva coordenada da direita espanhola contra o sistema público. A tramitação do decreto em regime de urgência, que impediu um debate mais aprofundado com a comunidade educacional, é vista pela oposição como um sintoma dessa agenda: uma mudança de paradigma imposta sem o devido escrutínio social.

Educação como bem ou serviço?

No fundo, a disputa nas Baleares espelha uma tensão fundamental nas democracias ocidentais. A educação deve ser tratada como um bem público universal, garantido por um sistema estatal robusto e equânime? Ou deve ser vista como um mercado de serviços, onde o Estado atua como um financiador que garante a "liberdade de escolha" das famílias entre diferentes provedores, públicos e privados?

O modelo de escolas "concertadas" vive nessa zona cinzenta. Nascido como uma solução para universalizar o acesso à educação em um país com uma forte tradição de escolas católicas, hoje ele é o campo de uma batalha política. A questão não é se o modelo deve existir, mas qual deve ser seu peso e prioridade frente ao sistema público. A decisão do governo de Prohens, na leitura dos socialistas, é um passo claro em direção à segunda visão: a do Estado como financiador de um mercado, não como o principal provedor do serviço.

O debate está longe de ser apenas técnico ou orçamentário. Ele é sobre o tipo de sociedade que se deseja construir a partir da sala de aula. As escolhas feitas hoje nas ilhas do Mediterrâneo ecoarão por gerações, definindo não apenas o futuro das escolas, mas a própria coesão do tecido social que elas ajudam a formar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España