Em um cenário hipotético situado em 2025, uma série de TV chamada Heated Rivalry se torna um fenômeno global. Produzida no Canadá e distribuída pela HBO nos Estados Unidos, a trama sobre um romance secreto entre dois jogadores rivais da NHL não apenas quebra recordes de audiência, mas também acende um debate sobre a homofobia no esporte profissional. O detalhe crucial: a série não existe. Ela é o objeto de análise de um trecho do livro Cutting Edge: Hockey as Queer Culture, de Daniel Gawthrop, publicado pelo portal literário Lit Hub.

O exercício de futurologia de Gawthrop é, na verdade, uma sofisticada ferramenta de crítica cultural. Ao construir um mundo onde a ficção alcança um impacto retumbante, o autor expõe uma questão do mundo real: por que a NHL, a principal liga de hóquei no gelo do planeta, continua sendo a única entre as grandes ligas esportivas da América do Norte sem um único atleta abertamente gay? A análise usa uma narrativa imaginária para dissecar barreiras que são bastante concretas.

O poder da narrativa (e seus limites)

A força da série fictícia, segundo o livro, reside na sua premissa e execução. Baseada na obra da escritora Rachel Reid — que criou um subgênero de romances sobre jogadores de hóquei gays —, Heated Rivalry conta a história de Shane Hollander e Ilya Rozanov. Eles são os dois melhores jovens jogadores do mundo, atuam em times rivais e mantêm um caso secreto e intenso por quase uma década. A narrativa funciona porque trata o relacionamento com a seriedade e a paixão de um drama de prestígio, longe de estereótipos ou alívios cômicos. A química entre os atores, a qualidade da produção e a ousadia do roteiro teriam criado um evento cultural que transcendeu o nicho.

Esse sucesso imaginário é contrastado com uma tentativa real, porém mal-sucedida, de abordar o tema no passado. O filme canadense Breakfast with Scot, de 2007, embora tenha tido o apoio oficial de um time da NHL, o Toronto Maple Leafs, não envelheceu bem. Apresentado como uma comédia familiar, o longa era assexuado e seus personagens, unidimensionais. A análise de Gawthrop sugere que, para que a representação tenha impacto, ela precisa ser autêntica e corajosa, algo que o filme de 2007 não foi e que a série fictícia de 2025 seria em abundância. Fica claro que não basta apenas tocar no assunto; a forma como a história é contada é determinante para sua ressonância.

O último bastião

O cenário mais otimista do livro descreve um jogador da vida real que, inspirado pelo protagonista da série, decide se assumir publicamente após vencer o campeonato da Stanley Cup. É uma fantasia poderosa, mas que serve principalmente para iluminar por que isso ainda não aconteceu. A fonte cita o ex-jogador Georges Laraque, que afirma ser "impossível para um jogador de hóquei gay se assumir nos próximos cinco ou até dez anos", devido à distração que a atenção da mídia causaria para toda a organização. O risco, portanto, não é apenas pessoal, mas percebido como uma ameaça ao foco e desempenho do time.

A cultura do vestiário, as pressões por uma masculinidade hegemônica e os riscos financeiros — como a perda de contratos de patrocínio — formam um muro difícil de escalar. No cenário fictício, o jogador que se assume o faz de uma posição de poder: é um campeão, com contrato de longo prazo e estabilidade financeira. A lição implícita é que, no mundo real, um atleta precisaria de um capital profissional e pessoal imenso para suportar o impacto. A questão transcende a coragem individual e aponta para estruturas rígidas e conservadoras que ainda governam o esporte de elite, um fenômeno observável não apenas no hóquei, mas em ecossistemas como o do futebol de alto rendimento no Brasil e no mundo.

Ao final, o exercício proposto por Cutting Edge não é uma previsão, mas um diagnóstico. O sucesso avassalador da ideia de uma série como Heated Rivalry sugere que existe uma demanda cultural e um público preparado para essa conversa. A audiência parece estar à frente das instituições. A pergunta que o livro deixa no ar não é se o esporte profissional está pronto para um atleta abertamente gay, mas por que as ligas, os clubes e os patrocinadores ainda agem como se não estivessem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub