Um dos entraves mais prosaicos e persistentes da economia circular pode estar com os dias contados. A startup Silvis Materials, cofundada pela CEO Patty Ferreira, egressa do MBA do MIT, está desenvolvendo um adesivo totalmente biodegradável a partir de celulose vegetal. O alvo é um inimigo onipresente e invisível: as colas à base de petróleo usadas em tudo, de móveis e painéis de construção a rótulos de embalagens.
A tese da Silvis é que a inovação em materiais sustentáveis precisa ir além dos componentes principais de um produto e atacar os aditivos que contaminam toda a cadeia. Como aponta uma reportagem do MIT Technology Review, o adesivo petroquímico em um rótulo de garrafa plástica é suficiente para impedir que o item seja efetivamente reciclado, mesmo que descartado corretamente. A cola se torna um contaminante que inviabiliza o processo.
Do problema à solução celulósica
O trabalho da Silvis, iniciado em 2014, partiu de uma releitura do papel da celulose, já utilizada como estabilizador em emulsões adesivas. A equipe de Ferreira conseguiu modificar a substância para replicar as propriedades de adesão da nanocelulose, um material mais caro e complexo de produzir. O resultado é uma fórmula capaz de gerar adesivos a partir de praticamente qualquer tipo de celulose vegetal, abrindo caminho para o uso de uma vasta gama de resíduos agrícolas ou florestais como matéria-prima.
O movimento ataca um pilar da indústria química de baixo custo e alto volume. Adesivos de petróleo são baratos, eficazes e profundamente integrados nas linhas de produção globais. Substituí-los exige não apenas paridade de performance, mas também um argumento econômico e ambiental robusto. É nesse ponto que a Silvis concentra sua proposta de valor.
O impacto além da embalagem
A promessa da startup é dupla: ambiental e energética. A empresa estima que seu adesivo possa cortar as emissões de gases de efeito estufa na produção em até 80% e consumir metade da energia necessária para fabricar colas de origem fóssil. São métricas que chamam a atenção de indústrias pesadas, como as de embalagens e construção, que enfrentam crescente pressão por descarbonização.
Para validar essa tese em escala, a Silvis conta com o apoio do MIT Startup Exchange (STEX), um programa que conecta startups de base tecnológica do ecossistema do MIT a grandes corporações. A plataforma está facilitando projetos-piloto com empresas de embalagens e construção para testar o desempenho do novo adesivo em condições reais de mercado.
O desafio, agora, transcende o laboratório. A questão não é apenas se a cola funciona, mas se ela pode ser produzida em escala e a um custo competitivo para deslocar um incumbente petroquímico. O sucesso da Silvis pode servir de termômetro para uma nova geração de inovações em deeptech focadas não em criar mercados, mas em limpar os existentes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT Technology Review





