À primeira vista, a imagem parece ser o beijo apaixonado entre dois homens. Mas a obra “The Kiss (Le Braiser)”, de 1982, um dos trabalhos mais potentes de Joel-Peter Witkin, esconde uma verdade macabra: a cena foi construída a partir da cabeça de um cadáver, serrada ao meio e com as metades pressionadas uma contra a outra. Este choque entre o belo e o grotesco, o sagrado e o profano, define a carreira de cinco décadas do fotógrafo americano.

Católico praticante, Witkin operava sob o princípio de que “somos todos filhos de Deus”, uma convicção que o levou a buscar a divindade justamente nos corpos que a sociedade prefere ignorar: pessoas com nanismo, amputados, indivíduos intersexo e outros marginalizados. Seu método era o do tableau vivant. Como um diretor de cinema, ele construía cenários elaborados, posicionava seus modelos e usava câmeras analógicas, tratando as impressões com alvejante ou arranhando negativos para conferir uma aura etérea às suas fábulas morais. Esta fase criativa se encerrou em 2018, quando foi diagnosticado com demência.

Uma história da arte subvertida

A obra de Witkin é um diálogo constante com a história da arte, mas para subvertê-la. Em “Gods of Earth and Heaven” (1988), ele recria “O Nascimento de Vênus” de Botticelli, mas sua deusa é uma pessoa intersexo, desafiando noções clássicas de gênero e beleza. Já em “Ecce Homo, NYC” (1975), um homem nu de saltos altos é equiparado a representações de Cristo, um ato que confere dignidade ao mesmo tempo que transgride.

Essa fusão de iconografia religiosa com a fluidez de gênero é central em seu trabalho. Em “The Soul Has No Gender” (2016), uma figura nua segura um crânio, na tradição dos retratos memento mori, enquanto três pregos na parede evocam a crucificação, traçando um paralelo entre o sofrimento de Cristo e o preconceito enfrentado por pessoas intersexo.

A retrospectiva de sua obra na galeria Fahey/Klein, em Los Angeles, não oferece respostas fáceis. Pelo contrário, força o espectador a confrontar o próprio desconforto. Ao encontrar beleza no que é considerado macabro e santidade no que é visto como profano, a lente de Witkin deixa uma pergunta incômoda: quem, afinal, define os limites do sagrado?

Com reportagem de Brazil Valley

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