O psicólogo social Jonathan Haidt consolidou, com seu best-seller "A Geração Ansiosa", uma narrativa poderosa: a ascensão dos smartphones e das redes sociais é a principal culpada pela crise de saúde mental entre adolescentes desde 2010. A tese ganhou tração global, inspirando de propostas de banimento na Austrália a processos judiciais contra empresas de tecnologia, segundo o The Verge.
O argumento, no entanto, não é um consenso. Embora a correlação temporal seja clara, uma crescente onda de ceticismo questiona se a causalidade é tão direta. A discussão levanta uma pergunta incômoda: e se o vilão for outro — ou se não houver um único vilão?
A tese e sua influência
O apelo da teoria de Haidt é sua simplicidade. Ela contrapõe uma "infância baseada em brincadeiras" a uma "infância baseada em telas" e atribui à segunda a explosão de quadros de ansiedade e depressão. Para pais e legisladores aflitos, a tese oferece um diagnóstico claro e um culpado tangível: as plataformas de Big Tech.
Essa clareza transformou o livro em um verdadeiro manifesto, armando um movimento que busca reverter a maré com restrições de idade e redesenho de produtos. A influência de Haidt é inegável, moldando a percepção pública e a agenda regulatória em diversos países.
As rachaduras no argumento
A principal crítica à tese é metodológica: correlação não implica causalidade. O período analisado por Haidt, a partir de 2010, também coincide com a ressaca da crise financeira de 2008, o aumento da instabilidade climática, a intensificação da polarização política e uma crescente pressão por performance acadêmica e profissional.
Ignorar esses fatores macroeconômicos e sociais pode ser um erro. Focar exclusivamente nas telas, argumentam os críticos, oferece uma solução aparentemente fácil para um problema multifacetado e complexo. O debate não é sobre absolver as redes sociais, mas sobre a honestidade intelectual de reconhecer que elas podem ser um sintoma, e não a causa raiz do mal-estar contemporâneo. A questão que fica é se a sociedade está pronta para encarar os problemas mais estruturais que a narrativa de Haidt convenientemente deixa em segundo plano.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Verge





