Na entrada de uma das salas, uma máscara basca contemporânea, parte ganso, parte mulher, encara um busto clássico de Homero, emprestado pelo Louvre. Mais adiante, o São Jorge e o Dragão de Rafael, ícone da Renascença, dialoga com um ícone sírio do mesmo tema, pintado um século e meio depois. Perto dali, uma figura do folclore local, o “homem-urso” usado nos carnavais para celebrar a primavera, observa a cena. Este não é um museu convencional. É o Musée Bonnat-Helleu, em Bayonne, no País Basco francês, e esta é a sua declaração de princípios.
Apelidado de “Pequeno Louvre”, o museu reabriu no outono passado após 14 anos de reformas, com o dobro do espaço e um novo diretor de 33 anos, Barthélémy Etchegoyen Glama, um filho da terra. A sua primeira exposição temporária, “Mitologias: Para Contar a História do Mundo”, é, nas suas palavras, “uma espécie de manifesto para o museu que queremos”. A proposta é usar mitos de diferentes culturas e épocas para revelar “temas e figuras recorrentes que falam à nossa humanidade compartilhada”. É uma visão que coloca o público, e não a academia, no centro da experiência.
Um museu para o público
A filosofia de Etchegoyen Glama, que já foi assessor de Laurence des Cars no Louvre, permeia toda a instituição. A própria coleção permanente foi reorganizada não por escola ou período, mas por grandes temas. A “Galeria dos Corpos”, por exemplo, justapõe representações do corpo humano do Egito antigo à França do século XIX, passando pela Itália do século XVII. A intenção, segundo o diretor, é permitir que o visitante “entre na coleção e na história da arte primeiro através de seus sentimentos e sentidos”.
Essa abordagem, que mistura o erudito e o popular, o antigo e o contemporâneo, o local e o global, busca criar uma forma mais aberta de narrativa. É uma tentativa de democratizar o acesso à arte, removendo as barreiras do conhecimento prévio e convidando a uma leitura mais intuitiva e pessoal. Segundo uma reportagem da ARTnews, que serviu de base para esta análise, a visão de Etchegoyen Glama é a de um museu como um “fórum social, aberto a uma pluralidade de vozes”, cuja responsabilidade vai além de preservar e exibir, estendendo-se a ser um espaço de diálogo.
A maré conservadora
Essa visão, contudo, rema contra uma maré crescente. Em vários países ocidentais, uma reação conservadora ganha força, questionando abordagens curatoriais inclusivas e decoloniais. Etchegoyen Glama afirma que “o que está acontecendo no campo dos museus é um reflexo do que está acontecendo na sociedade em geral”. Ele identifica uma divisão entre duas correntes: de um lado, os que ainda defendem a responsabilidade social do museu; de outro, os que parecem estar “voltando a um período anterior”.
Os exemplos se acumulam. Na Itália, o governo de direita de Giorgia Meloni tem buscado remodelar instituições culturais com novas lideranças, alegando que o setor era dominado pela esquerda. Na França, observadores do setor, falando à ARTnews sob condição de anonimato, apontam para a mudança de comando no próprio Louvre. A saída de Laurence des Cars, cuja gestão foi descrita como promotora de “questões sociais através da arte”, e a chegada de Christophe Leribault, visto como uma escolha mais “segura”, sugerem um possível recuo em direção a uma visão mais canônica e franco-cêntrica. A historiadora da arte Anne Lafont fala com preocupação sobre a “janela que se abriu” para discutir o passado colonial na arte francesa, temendo que ela “seja difícil de manter aberta”.
O debate sobre o papel do museu tornou-se, assim, um campo de batalha cultural. A visão de Bayonne, com sua teia de conexões e diálogos, representa uma aposta na complexidade e na abertura. É, como diz seu diretor, “uma visão do museu pela qual vale a pena lutar”. A questão que paira no ar é se essa trincheira cultural no País Basco é um vislumbre do futuro ou um dos últimos bastiões de uma ideia sob cerco.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





