Em um momento de intensa polarização e nacionalização da política, a resistência mais eficaz ao autoritarismo pode não vir das capitais federais, mas das cidades e estados. Essa é a tese central de um ensaio publicado na revista Persuasion, fundada pelo cientista político Francis Fukuyama. O argumento é que, quando as instituições federais falham em servir de contrapeso, a lealdade a identidades locais e regionais se torna um poderoso motor para a ação coletiva em defesa da democracia.
O autor, Adam Fefer, pesquisador do Stanford Center on Democracy, Development and the Rule of Law, sustenta que o sentimento de pertencimento a uma comunidade — ser um “gaúcho”, um “paulistano” ou um “californiano” — pode transcender as divisões partidárias. A análise se baseia em um cenário hipotético nos Estados Unidos e em casos reais de países como Índia, Turquia e Brasil, onde governos estaduais e prefeituras se tornaram focos de oposição a líderes com tendências autocráticas.
A identidade como escudo
A força da identidade subnacional reside em sua capacidade de reformular um conflito político. O que em nível nacional é visto como uma batalha entre esquerda e direita, em nível local pode ser percebido como um ataque de uma força externa contra “um dos nossos”. Segundo o artigo, essa dinâmica mobiliza cidadãos que, de outra forma, permaneceriam à margem de uma briga puramente partidária. A defesa de um vizinho, colega de trabalho ou membro da mesma congregação religiosa, independentemente de seu status imigratório ou filiação política, torna-se uma causa comum.
O Brasil oferece um exemplo recente e contundente dessa dinâmica. Durante o governo de Jair Bolsonaro, estados se tornaram centros de resistência a políticas do governo federal, notadamente na gestão da pandemia de covid-19. Governadores de diferentes espectros ideológicos formaram consórcios para negociar a compra de vacinas e equipamentos médicos de forma independente, articulando uma visão alternativa à negação da ciência promovida pelo Planalto. A defesa dos interesses do estado e de seus cidadãos serviu como um ponto de união que superou, em muitos momentos, as alianças políticas nacionais.
A lealdade do poder local
Essa mobilização da sociedade civil tem um efeito cascata sobre as próprias estruturas de poder local. Policiais, burocratas e políticos eleitos em nível estadual e municipal também são membros dessas comunidades. O artigo argumenta que, diante de ordens federais consideradas abusivas, a pressão social e o sentimento de pertencimento local podem levar esses agentes a descumprir diretrizes ou mesmo a “desertar” de alianças com o poder central. A lealdade à comunidade pode se sobrepor à lealdade partidária ou hierárquica.
No entanto, o autor adverte que as identidades subnacionais não devem ser romantizadas. Historicamente, elas também serviram para reforçar divisões e excluir minorias, como no regime de segregação racial de Jim Crow nos EUA. O risco de que o “nós contra eles” local se transforme em uma ferramenta de exclusão é real. Ainda assim, a análise sugere que, em momentos de crise constitucional e concentração de poder, recorrer a essas identidades imperfeitas pode ser a única alternativa viável.
Líderes autoritários são hábeis em mobilizar suas próprias narrativas de identidade — os “esquecidos”, os “nativos”, o “povo” contra a elite. A resiliência democrática, portanto, não depende apenas de instituições e leis, mas da capacidade da sociedade civil de articular identidades alternativas que inspirem ação coletiva. A questão que permanece em aberto é se os laços locais e regionais são fortes o suficiente para resistir à força centrípeta da polarização nacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





