As principais emissoras de TV aberta do Brasil estão se articulando em Brasília para garantir um atalho no controle remoto do espectador. Globo, SBT e Band, com o apoio da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), pressionam pela edição de um decreto presidencial que obrigue os fabricantes a incluir um botão dedicado aos canais abertos nos televisores.

A movimentação, que segundo o portal F5 já tem a simpatia do Ministério das Comunicações, é uma reação direta à perda de espaço para os serviços de streaming. A leitura é que a disputa pelo controle remoto é um sintoma da dificuldade da TV tradicional em competir no ambiente digital, recorrendo à regulação para resolver um problema de interface e de mercado.

O campo de batalha da interface

O argumento central das emissoras é que o design das smart TVs modernas privilegia os aplicativos pagos. Botões com as marcas de Netflix, YouTube ou Prime Video são hoje um ativo valioso, negociado diretamente entre as plataformas e os fabricantes de hardware. Para as redes de TV, isso cria uma vantagem comercial desleal e dificulta o acesso à programação aberta, um serviço de concessão pública.

A preocupação tem um alvo demográfico claro: o público mais velho e de menor renda, base da audiência da TV aberta. As emissoras afirmam que esses telespectadores têm dificuldade em navegar pelas interfaces complexas para encontrar os canais tradicionais. A batalha pelo botão, portanto, é também uma tentativa de proteger seu principal ativo: uma audiência massiva e fiel, que começa a se fragmentar.

Regulação como atalho

A proposta busca, na prática, antecipar uma regra já prevista para o futuro padrão da TV 3.0, que determina a inclusão de um botão de destaque. A urgência em formalizar a exigência via decreto, aplicando-a aos aparelhos atuais, revela o tamanho do incômodo com o avanço do streaming. A iniciativa, que teria partido do SBT e ganhado a adesão das concorrentes, mostra uma rara união do setor contra um adversário comum.

O movimento abre um debate sobre o papel da regulação na organização da experiência do usuário. Se por um lado a TV aberta cumpre uma função social, por outro, a intervenção pode ser vista como uma medida protecionista que interfere na livre negociação entre fabricantes e plataformas de tecnologia. A disputa não é apenas por um botão, mas pela primeira janela de atenção do consumidor ao ligar a televisão.

A guerra pelo controle remoto ilustra a encruzilhada da mídia tradicional. A busca por uma solução regulatória pode garantir um atalho físico, mas não resolve o desafio de fundo: criar conteúdo e uma experiência que justifiquem o clique em um ecossistema de escolhas infinitas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Tecnoblog