Em Toreno, uma pequena municipalidade na Espanha, uma usina de biodiesel completa, com tanques, tubulações e salas de processo, permanece em silêncio há mais de uma década. A instalação, que custou cerca de €18 milhões — boa parte em subsídios públicos —, nunca produziu um único litro de combustível.
Segundo reportagem do site espanhol Xataka, o projeto foi vítima de uma tempestade perfeita: aprovado em 2009 no auge de um plano de reconversão econômica para uma antiga região mineradora, viu o mercado global de biocombustíveis desabar logo em seguida. A história da usina fantasma é um estudo de caso sobre a fragilidade da inovação institucional quando descolada da dinâmica de mercado.
A miragem do subsídio
A planta de Toreno nasceu de uma promessa de prosperidade. Com um investimento previsto de €23,5 milhões e a expectativa de gerar até 50 empregos, o projeto foi declarado de "interesse especial" e recebeu €15,8 milhões em fundos públicos. O promotor, a empresa VB Toreno, era controlado por um investidor americano. Contudo, em 2016, sem nunca ter operado, a empresa comunicou o fim das atividades.
O caso não é isolado. Em Valdetorres, um projeto ainda mais ambicioso, que seria a maior planta de biodiesel da Europa com investimento de €70 milhões, acabou leiloado por pouco mais de €1 milhão. Esses "elefantes brancos" industriais são monumentos a uma estratégia comum em políticas de inovação: a crença de que o capital público pode, por si só, criar um mercado que ainda não existe.
O mercado mudou, a usina não
O principal obstáculo para a reativação de Toreno é que o setor de energia moveu-se para outra fronteira. Hoje, os grandes investimentos na Espanha estão direcionados para biocombustíveis de segunda geração, como o combustível sustentável de aviação (SAF) e o diesel renovável. Gigantes como a Cepsa investem em complexos modernos, deixando plantas de primeira geração como a de Toreno tecnologicamente obsoletas.
A única via de salvação para estruturas do tipo, como mostra o caso de uma antiga planta da Abengoa em San Roque, é a aquisição por um grande player industrial que a integre em sua operação. Sem um comprador com essa escala e interesse, o destino mais provável para a usina de Toreno é o mesmo de outras instalações abandonadas: a lenta deterioração pelo tempo e pelo vandalismo.
A história de Toreno é um lembrete sóbrio sobre a distância que separa a intenção política e a realidade econômica. A usina permanece intacta, um testemunho silencioso de que construir a infraestrutura é a parte mais fácil. O verdadeiro desafio é garantir que haja um caminho para ela no mundo real.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





