A corrida pela digitalização financeira no Brasil colocou os bancos do país na linha de frente de uma batalha complexa: a da fraude em tempo real. Um novo estudo global da empresa de cibersegurança BioCatch aponta que 70% das instituições financeiras brasileiras consideram a detecção instantânea de fraudes uma prioridade máxima, com 60% buscando ativamente defesas baseadas em inteligência artificial.
Essa postura não é uma opção, mas uma necessidade imposta pela realidade local. A rápida e massiva adoção do Pix, ao mesmo tempo que revolucionou os pagamentos, criou um ambiente fértil para golpes de engenharia social. Segundo a pesquisa, o Brasil se tornou uma “principal referência” global no combate à fraude autorizada — aquela em que o próprio cliente, coagido ou enganado, realiza a transação. O cenário forçou o sistema financeiro a inovar em um ritmo mais acelerado que seus pares internacionais.
A nova fronteira é o comportamento
A sofisticação dos golpes tornou a autenticação tradicional insuficiente. Confirmar a identidade do usuário já não basta quando é o próprio usuário legítimo que está sendo manipulado para autorizar uma transferência. A fronteira da defesa se deslocou da identidade para a intenção, e a chave para isso é a análise de comportamento. O estudo da BioCatch indica que 43% dos líderes de bancos brasileiros veem a análise comportamental e de intenção como prioritária, um número significativamente maior que a média global de 27%.
Essa tecnologia funciona como uma camada adicional de segurança, analisando não quem está operando, mas como a operação está sendo feita. Padrões de digitação, hesitações, navegação atípica pelo aplicativo ou a velocidade da transação podem indicar que o cliente está agindo sob coação. É um reconhecimento de que, no contexto brasileiro, a verdadeira vulnerabilidade muitas vezes não está no sistema, mas na psicologia do usuário.
O custo oculto da fraude
Apesar dos avanços tecnológicos, o setor enfrenta um desafio de gestão crucial. A pesquisa destaca um ponto cego significativo: o impacto da fraude na retenção de clientes. Surpreendentemente, 62% das instituições brasileiras admitem acompanhar a perda de clientes pós-fraude de maneira informal ou pontual, sem uma métrica estruturada. O número global, já alto, é de 49%.
Este dado revela uma falha no cálculo do retorno sobre o investimento em prevenção. Clientes que sofrem um golpe tendem a diminuir o uso dos serviços do banco ou a migrar seu relacionamento principal para um concorrente percebido como mais seguro. Sem medir essa evasão, o custo real da fraude é subestimado, focando-se apenas na perda financeira direta e ignorando o valor de um cliente perdido.
Enquanto a indústria avança na implementação de IA e biometria, a próxima etapa da maturidade parece ser menos tecnológica e mais gerencial. Quantificar o dano reputacional e o churn de clientes é essencial para justificar investimentos e compreender a dimensão completa do problema. A tecnologia pode identificar a coação em tempo real, mas a estratégia de negócio precisa medir a perda de confiança no longo prazo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





